Por Ronaldo Faria
Tristeza escorre sobre a mesa
onde a taça de vinho descansa sua cor quase em sangue exangue. No sombrio bar,
escondido numa esquina qualquer, o homem sonha com a alegria perdida e furtiva,
dessas que se esconde em lugar tão recôndito que nem o coração sabe encontrar. Nos
olhos marejados e prostrados num quase escurecer derradeiro, Emiliano brinca
com os insetos que seu vítreo ocular dá como fossem crias suas a voar. Afinal,
além dele, ninguém mais os vê. No silêncio do som gritante que soa e ecoa dos
ouvidos, faz bandear as alegrias torpes e passageiras que qualquer imensidão
dá. No palco, um bandoneon chora junto ao tango mais pungente que já se ouviu.
-- O senhor deseja outra taça?
A voz do garçom, solícito e a crer que o melhor na descrença é tentar ser, lhe soa como último pedido em cadafalso.
-- Pode trazer, claro. Aliás, traga a garrafa e a deixe aqui.
Agora um piano personifica no salão as teclas ascetas que invadem a alma sem pedir permissão. E vem a lembrança ancha de paixão e famélica na ausência do amor. No torpor que o fim de tudo traz, as dores repicam pelo corpo. De fora vem o odor de damas da noite com seus perfumes baratos. Nos esgotos, vê-se um ou outro rato. Um motorista tresloucado buzina sem parar. Do alto do prédio o zumbi homofóbico grita a plenos pulmões: “Viado!” No bar, em sua acústica solitária, atávica, plenipotenciária, nada se ouve. As notas da canção são o verbo único e final.
O vinho, Devil’s Carnival, desce pela garganta entregue ao silêncio profano. No altar colocado no canto do bar, um anjo arcanjo abençoa a cena. Diante dos dedos que correm dos instrumentos em lamento, o casal – ele com perfil anasalado e ela esguia como enguia que aprendeu a bailar – dança no salão. Adamastor, contrito na sua dor, vê e revê o bailar da amada nas areias da praia que se entrega ao mar embriagada e tragada de ondas a pulular. E no seu silêncio que grita ao mundo seu sofrer, catatônico e atônito no limiar da lucidez, beija a tez da escolhida num tormento em lumiar. Defronte de tudo, encolhida de medo, uma criança sequer sabe por que está na narrativa de sortilégios que nem o autor, perdido na sua imensidão, consegue explicar.
-- O senhor deseja outra taça?
A voz do garçom, solícito e a crer que o melhor na descrença é tentar ser, lhe soa como último pedido em cadafalso.
-- Pode trazer, claro. Aliás, traga a garrafa e a deixe aqui.
Agora um piano personifica no salão as teclas ascetas que invadem a alma sem pedir permissão. E vem a lembrança ancha de paixão e famélica na ausência do amor. No torpor que o fim de tudo traz, as dores repicam pelo corpo. De fora vem o odor de damas da noite com seus perfumes baratos. Nos esgotos, vê-se um ou outro rato. Um motorista tresloucado buzina sem parar. Do alto do prédio o zumbi homofóbico grita a plenos pulmões: “Viado!” No bar, em sua acústica solitária, atávica, plenipotenciária, nada se ouve. As notas da canção são o verbo único e final.
O vinho, Devil’s Carnival, desce pela garganta entregue ao silêncio profano. No altar colocado no canto do bar, um anjo arcanjo abençoa a cena. Diante dos dedos que correm dos instrumentos em lamento, o casal – ele com perfil anasalado e ela esguia como enguia que aprendeu a bailar – dança no salão. Adamastor, contrito na sua dor, vê e revê o bailar da amada nas areias da praia que se entrega ao mar embriagada e tragada de ondas a pulular. E no seu silêncio que grita ao mundo seu sofrer, catatônico e atônito no limiar da lucidez, beija a tez da escolhida num tormento em lumiar. Defronte de tudo, encolhida de medo, uma criança sequer sabe por que está na narrativa de sortilégios que nem o autor, perdido na sua imensidão, consegue explicar.
