Numa esquina qualquer no Rio de
Janeiro em pleno janeiro cheio de calor e quentura que o corpo normal não sabe
se está no inferno ou no apocalipse do fogo, Clara e José vivem a festa junina
antecipada. Soltam balões incandescentes de chamas de amor, pregam bandeirinhas
num varal milimetricamente definido e juram juras para algum João, Pedro ou Antônio.
A todos, certamente, serão bons dias em amor. Estorvos feito corvo profético ou
fétido, nos façamos olvidar.
Nas vozes de algozes que vivem
e sobrevivem em raros momentos de lucidez, sons rotineiros e algum silêncio
prematuro e maduro do dia que sequer se esqueceu de ser e escurecer. Uma
pequena chuva de verão nada mais é do que o chegar de poucas gotas no mundo.
Cataclismos e cismo retardados ou catastróficos. Na utopia de cada um de nós,
utópicos e sombrios poemas envolvidos numa eterna lembrança. Na lambança de contar
frases, paráfrases etéreas ao nada.
Na praça cheia de pombos cagões,
unções de histórias histriônicas a se volatizarem, um ou outro babaca ou herói
joga milho para saciar a fome dos pássaros que dividem amores e ódios. Perdido
no ardido saber de viver, Jeremias se antecipa a Clara e José e diz que tem que
existir um meio termo, mesmo seja este jogado ao léu do haver. Na loucura da
procura, pouco há que se responder. Mas o que é essa tal de vida senão um imbróglio
de tanto faz o quente ou tanto faz o frio? Tanto faz...
(Na saudade do Céu da Boca)
