quarta-feira, 29 de julho de 2026

Logo cedo?

 Por Ronaldo Faria


Os passos pequenos e curtos de Ananias (Quinzinho para os pais) dobravam as curvas da estrada de terra, dessas estradas que se esparramam em tal tristeza e falta de ser que quando são vistas ninguém crê que ali algo possa haver. Passava em suor de criança por um ou outro pé de mandacaru, via uma ou outra cruz de anjinho enterrado a poucos palmos por não conseguir sequer nascer. Coisa de mãe que pariu vida morta só pra parir o gozo do seu homem meses atrás. Sobre a sua cabeça pequena, o sol torra miolos e olhos que tentam vê-lo. Sob seus pés, pedriscos e restos de raízes calcinados.
Nos passos de Ananias/Quinzinho, transpassados de saudades poucas e raro passado, o tempo corre inglório e simplório. A seguir sua rota em tamanha distância, leva um pedido de receita para o turco dono da drogaria, na entrada da pequena cidade. Serão algumas horas entre ida e vinda, mas sua irmã mais nova, Zefinha, a Vigésimazinha, precisava do remédio para completar seu ano primeiro. Ela, decerto, não será outro louvor desterrado num pequeno caixão feito a mão. Se dependesse dele, ela iria correr a plantação de milho, jogar grãos às galinhas, buscar os ovos que surgirem, tomar banho de rio nos poços que por lá resistirem.
Do alto, a baterem suas asas negras, urubus apostam até quando Quinzinho irá sobreviver. Com os poucos réis do remédio no bolso e a cabaça já na metade, continua firme e forte. Como disse um escritor em algum tempo, ele era sertanejo antes de tudo forte, como seu pai, avô e tantos outros que viveram para enterrar seus netos e filhos. Com certeza, ao chegar da noite infinda, já estaria em casa, a dividir sua esteira, cheirar o cheiro de lampião e ver Zefinha de novo a tentar sorrir. Criança arrancada de sua infância, com calos de enxada nas mãos para tirar o pouco do chão, ao menos ali ri do bezerro da fazenda do coronel que se enche nos peitos da vaca, dos filhos do dono de tudo que puxam caminhões de madeira colorida a brincar, da casa de farinha que transforma mandioca em saciedade.
Assim, após tanto tão longe e distante, o menino chega à cidade finda. Vai até a Botica do Salim e mostra o papel dobrado com carinho e cuidado. “Que letra horrível! Quase não se dá pra ler. Ainda bem que o único médico daqui é o Belisário, que nunca frequentou aula de caligrafia”, diz o turco que antes de ser farmacêutico era mascate. “Vou preparar. Pode esperar aí, se quiser.” O pequeno ser não quis. Melhor passear na cidade que ele tão pouco vê. E ali há janelas amplas, casarios coloridos, lojas com cortes de vestidos. Na praça da igrejinha, um homem no realejo pedia a seu pássaro que mostre o destino de cada um. Noutro ponto, o prestativo lambe-lambe arruma o casal para a foto que ficará pendurada na sala por gerações. Vira-latas brincam de ser, pássaros pulam de galho em galho na vida que sorri em viver. Há o que se ver.
Dado o tempo pensado, o garotinho volta ao local que salvaria sua irmã. “Está aqui, pixote. Leva com cuidado. Essa receita é demorada e difícil de fazer.” Ele agradece e diz que em suas preces da noite irá lembrar de Salim. “Agora vai, eu quero mais é fechar neste dia que logo terá fim.” Na retomada da volta, o sol já está mais quieto e presto. Talvez a querer receber as corujas que se preparam para sair das tocas. Senão, para ser voyeur dos casais mais sedentos que trocarão carícias por baixo das vestimentas numa esquina qualquer. Passo depois de outro passo, no descompasso imediato do dever cumprido, vai a brincar de crer. Depois de horas e a escuridão a tomar tudo em todo, enxerga sua casa que ilumina a sina do negror. Dá o frasco à mãe, recebe um beijo na testa, vai se banhar de cuia e comer o que resta. Dorme feliz e sonha com a tal de luz elétrica que lá no vilarejo é real. No dia seguinte, ao primeiro cantar do galo, ouve a voz de Zefinha, refeita, a pedir um copo de leite tirado de Madalena, a derradeira vaquinha viva. A vida, enfim, havia se feito prazenteira. No galinheiro, logo ali perto, de presto, uma raposa sai a correr com um pintinho na boca.
 
(Com Milton Bituca Nascimento no ar)

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