quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Hora de mudar para o Gil junino, ou não

 Por Ronaldo Faria


Numa esquina qualquer no Rio de Janeiro em pleno janeiro cheio de calor e quentura que o corpo normal não sabe se está no inferno ou no apocalipse do fogo, Clara e José vivem a festa junina antecipada. Soltam balões incandescentes de chamas de amor, pregam bandeirinhas num varal milimetricamente definido e juram juras para algum João, Pedro ou Antônio. A todos, certamente, serão bons dias em amor. Estorvos feito corvo profético ou fétido, nos façamos olvidar.

Nas vozes de algozes que vivem e sobrevivem em raros momentos de lucidez, sons rotineiros e algum silêncio prematuro e maduro do dia que sequer se esqueceu de ser e escurecer. Uma pequena chuva de verão nada mais é do que o chegar de poucas gotas no mundo. Cataclismos e cismo retardados ou catastróficos. Na utopia de cada um de nós, utópicos e sombrios poemas envolvidos numa eterna lembrança. Na lambança de contar frases, paráfrases etéreas ao nada.

Na praça cheia de pombos cagões, unções de histórias histriônicas a se volatizarem, um ou outro babaca ou herói joga milho para saciar a fome dos pássaros que dividem amores e ódios. Perdido no ardido saber de viver, Jeremias se antecipa a Clara e José e diz que tem que existir um meio termo, mesmo seja este jogado ao léu do haver. Na loucura da procura, pouco há que se responder. Mas o que é essa tal de vida senão um imbróglio de tanto faz o quente ou tanto faz o frio? Tanto faz...

(Na saudade do Céu da Boca)

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