quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

Hendrix, o maior das cordas e do tempo

Por Ronaldo Faria

Hoje (terça-feira, dia 8), dia que voltei para casa pensando no quanto a vida é efêmera e que cada segundo nada mais é do que passado (o presente é abstrato e o futuro, incerto, não existe, já que sempre será um segundo presente que vira passado no próximo segundo), resolvi escrever sobre o disco Blues, de Jimi Hendrix. Para falar dessa obra, roubo um pedaço da Wikipédia: Blues, de 1994, contém onze canções anteriormente gravadas entre 1966 e 1970. São sete composições próprias junto com regravações de famosas canções de blues como Born Under a Bad Sign e Mannish Boy. E a ouvir a guitarra Fender desse gênio do rock, morto em 1970 prematuramente aos 27 anos, de overdose, me atenho àquilo que pode ser chamado de fama e de finitude. Ele teve a fama e “optou” pela finitude que o levou à eternidade como lenda do rock. 

Tenho toda a discografia oficial de Hendrix, em estúdio ou ao vivo, baixada e lançada entre 1964 e 2008, além de outros discos póstumos e de homenagem, como Blues. Assim como revejo muitas vezes a sua apresentação em Woodstock (também tenho o que foi gravado e reproduzido naquele que foi o ícone dos festivais, em três discos posteriores), além do DVD alusivo. Para mim, esse guitarrista representa muito do rock e da loucura dos Anos 60. Da liberdade que se lançou naquela década para o planeta: o romper de parâmetros e padrões, o movimento hippie, a luta contra a guerra do Vietnã, a ênfase na luta de libertação e igualdades das mulheres, a juventude em revolta nos continentes, a contracultura, o amor livre, as descobertas e fugas pelas drogas, o romper com a caretice vigente, o combate ao racismo explícito nos Estados Unidos, o rock se impondo, o embate declarado a tudo que era antiquado e opressor.

Nasci em 1957 e, portanto, dos Anos 60 guardo apenas um pouco da minha infância e pré-adolescência. Infelizmente, pouco. Na verdade, trago desse período mais as minhas raízes com o Nordeste, sua música e sua gente do que a febre que marcou a década. E, claro, trago um pouco de Tropicália, das canções que cantava. Nessas horas queria ter nascido no início dos Anos 50 para ter vivido a loucura transformadora que a década seguinte impôs ao planeta. Não quis o destino, porém, que assim fosse. E contra o destino e o encontro de espermas e óvulos não se tem como brigar.

Jimi Hendrix com certeza é um ícone dessa realidade nova, assim como Janis Joplin, Creedence Clearwater Revival, Joe Cocker, The Who, Jefferson Airplane, Santana, Joan Baez e tantos outros que estiveram em Woodstock em 1969. Após a sua morte não faltaram exclamações declaradas e textos sobre a sua genialidade como guitarrista, escritos e repetidos nos Estados Unidos, Inglaterra e no mundo. Votações e especialistas, publicações como a Rolling Stones, o colocaram como maior guitarrista que o planeta já viu. Da sua guitarra saíam sons estridentes e incríveis. Da sua voz, interpretações fantásticas. Em Blues, a certeza de que ele era realmente uma voz plural e envolvente, mágica e comovente, total, enlouquecida e sóbria em cada nota, em cada acorde, na sua plenitude. 

É difícil descrever cada música implícita no álbum pelo simples fato de escrever sob o seu som. E o som de Hendrix não é de se explicar e dizer algo técnico ou definitivo. É de se ouvir e sentir, se envolver. Algumas delas nem parecem blues. São verdadeiras orgias de rock declarado. Mas o rock não tem raízes no blues? Logo, tudo no liquidificador das emoções vira uma coisa só, embalada por Jimi Hendrix, bandas e o que vier. O que eu sei é que é um disco a se ouvir, assim como toda a discografia desse moço de Seattle encontrado morto em Londres. Assim como a execução do hino nacional dos Estados Unidos em Woodstock, em que a sua guitarra virou uma metralhadora, não pode ser desprezada pelos ouvidos de quem ama a música (https://www.facebook.com/watch/?v=1848692391934700). Sob a ação de LSD ou não, ali Hendrix mostrou que "loucura" e “sanidade emocional” convivem numa coisa só. E essa foi a essência de sua passagem rápida pela Terra: mostrar que ambos são objetos vivos dessa coisa incrível chamada música. Essa expressão que une musicoólatras por todo o planeta. A certeza de que amor e paixão haverão de prosperar na sua finitude planetária e sobreviver no inconsciente coletivo, mesmo que esse coletivo seja um grupo mirrado de ensandecidos, notívagos e sonhadores.  Sejamos, pois...

Esse álbum você encontra no Deezer e no Amazon Music.

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