quinta-feira, 7 de abril de 2022

Elis não morreu

 Por Ronaldo Faria

Um copo no balcão a pedir mais. No sorriso solto e embriagado, um fardo a seguir. O afago do tempo, feito pimentinha a cobrir pedaços de pé de porco que descem a dentro para o sempre. Um canto de cidade em seu centro onde o cantar não entoa mais. Loucos e bêbados se sobressaem nos ônibus que chegam e vão no vão que se esvai entre esgotos e torpes ébrios soltos a brincarem de cair e levantar. Um gole a mais, camiseta de proveta a nascer de uma amizade entre goles e golfadas. A lua, do alto, sem saber se é cheia ou nascente, se faz pungente e emerge para iluminar o último urinar no banheiro de todos e de ninguém.

Um copo a buscar o derradeiro gole no fole da embriaguez que se transforma em música e cantar no entardecer de descobertas e cobertas jogadas ao chão para receber os corpos dos amantes desnudos de prazer e ilusão. No chão, o frio que percorre o lugar se desfaz entre águas jogadas de esguicho e mijo. Lá fora toda cruz se perfaz de milagre a versejar poemas e fonemas sem exatidão qualquer. Um adeus logo se fará e lágrimas vão cair no porvir do sempre virá. A voar, o passado encarnado de doenças, cânceres e redescobertas. No levar ao quadrado igual, um nó desatado sem saber sequer se um dia irá de novo juntar os dois no solar.

Um copo e um pingente de espírito santo no pescoço da esteta. Em sânscrito, o embriagado poeta tece poemas como se fosse o futuro um único manto. Entre um mercado de cheiros e pesos, na lânguida e ávida saudade da volta, homens e mulheres se travestem de alegrias e mimos para voltarem para casa, onde a tristeza os espera para recebê-los incongruentes e tementes da solidão. No mesmo lugar, as mesmas desmazelas e o finito prato no fogão. Em algum ponto do planeta haverá certezas e unção. Senão, valeu apenas ter sido, como um suicídio que a gente cria e desfaz a cada novo raiar de sol a desenrolar tramas, incertezas e orgia.

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