sexta-feira, 13 de maio de 2022

Ao Chico

 Por Ronaldo Faria



Madrugada iniciada. Marjorie no fundo da tela, calada. Cachaça desbragada, de Muzambinho. No empório da vida, indefinida e desnaturada, atada vida. Pedaços de emoção sem noção, telefonemas entrecortados e desvairados. Vozes a ouvir, desanuviadas de tédio e pregações do certo e do errado. Não há futuro, o passado se foi para a bacia das almas, o presente, premente, urge por ficar só pelo desejo e ensejo de ficar. Nada adiante, muito para trás, prédios cheios de concreto a vigiar a noite da gente. E lágrimas caídas, histórias decaídas, profanas e insanas meias-verdades. Acaso do inenarrável gesto de viver. Cansaço de tentar ser dois na doída realidade de decidir por tantos. Arcanjos no céu a sonhar que hoje poderemos dormir em paz. A tragédia e a comédia, o teatro me apraz. Lá longe, detrás, a mulher, o corpo, o torneado trinado de orgasmos e delícias inauditas. Vozes escondidas e ditas. Corpos desnudos e carícias, lascivas promessas de ser feliz, na mais infeliz saudade sem maldade ou veleidade. E parcimoniosas vontades de deuses inexistentes, ausentes caminhos no imbróglio de não saber para onde caminha o coração sem oração. Ações, cauções não cobradas, canções cantadas, nefastas árias feitas de sim e de não. Para onde ir? Para onde se lançar? O que fazer? À frente, defronte, estrada sem curvas, retas limítrofes e insones, sem lábios, sem sentenças, sem nomes. E apenas um homem, perdido entre imagens e vagens irreais por fazer, estragando na geladeira num terno eterno de congelar e ferver...

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