segunda-feira, 30 de maio de 2022

O Tira Poeira e a renovação do choro

Por Edmilson Siqueira 

Tira Poeira. Conhece? Pois saiba que o grupo com esse nome já gravou um CD que teve participações de Maria Bethânia, de Olivia Hime de Lenine e do DJ Sany Pitbull. Tirando o último, que não conheço, não é fácil trazer os outros três grandes artistas para participarem de faixas de um CD que era apenas o segundo do grupo.  


Pois isso aconteceu em 2008, quando foi lançado o CD Feijoada Completa, nome da música do Chico Buarque que está entre as treze selecionadas para o trabalho.  


Segundo um release na página do grupo no Facebook, o Tira Poeira "é um quinteto de 'choro contemporâneo', que apresenta esse gênero enquanto linguagem tradicional dentro da música brasileira, gerando um som novo, a partir de influências e misturas com diversos outros estilos musicais, com um pé na tradição e outro no mundo. 


Formado por Henry Lentino (bandolim), Caio Márcio (violão), Samuel de Oliveira (saxofone), Fábio Nin (violão 7 cordas) e Sérgio Krakowski (pandeiro), o som peculiar do Tira Poeira se deve à variada formação musical de seus integrantes, que passeiam por diversas vertentes musicais, e pelo lugar de destaque dado à improvisação, à experimentação e à liberdade, que, aliadas a arranjos elaborados, resultam numa combinação vibrante e surpreendente." 

Bom, ninguém escreveria tudo isso sobre um grupo musical se ele não tivesse um grau de qualidade que justificasse esses elogios todos.  


E ouvindo o CD não há que se discordar de uma linha dos "elogios". Os caras são bons mesmo e passeiam sim por vários gêneros com a mesma desenvoltura. 


Para se ter uma ideia, o grupo que se autointitula de "choro contemporâneo" apresenta, na quarta faixa do disco, nada menos que "Eleanor Rigby", a icônica música de Paul McCartney que surpreendeu o mundo em 1966. Ninguém ficava indiferente ao ouvi-la, que por sua beleza melódica, por seu inusitado acompanhamento num disco de rock (ela foi gravada no LP "Revolver") e pelo impacto auditivo que causava. 


E o Tira Poeira se incumbe da tarefa de modo soberbo, só com instrumentos. Aliás, não se trata de um grupo vocal. As canções que aparecem no disco são cantadas pelos convidados. É o caso da terceira faixa, "Gente Humilde", a linda canção na qual Vinicius de Moraes e Chico Buarque botaram uma letra digna da inspiração do violonista Garoto, autor da melodia. Quem canta é Maria Bethânia.  


Antes, nas faixas 1 e 2, a qualidade do grupo não deixa qualquer sombra de dúvida: "Arrastão" (Edu Lobo e Vinicius de Moraes) e "Senhorinha" (Guinga e Paulo Cesar Pinheiro) são unidas na primeira faixa, num show de sonoridade. Depois, o grupo arremata com nada menos que "Trenzinho Caipira" do nosso maior compositor clássico, Heitor Villa- Lobos. 

O som instrumental retorna nas faixas 4 ("Eleanor Rigby"), 5 ("Lamento Sertanejo", de Dominguinhos e Gilberto Gil) e 6 ("Feijoada Completa, de Chico Buarque), que eles unem novamente a "Senhorinha".  

Outra convidada é a incumbida de cantar "Valsa de Eurídice" (Vinicius de Moraes) a faixa 7 do disco. E o faz com leveza e emoção, dentro de um arranjo contido que faz sobressair a bela letra que o poeta escreveu para uma das raras canções que ele mesmo compôs. 


Diz ainda o release que o Tira Poeira é considerado "um dos grupos mais importantes do movimento de revitalização da Lapa e investe na vertente “chorística” utilizando-se também de elementos do jazz, samba, flamenco, clássico, blues, bossa nova e funk. Revisitam temas de gênios como Waldir Azevedo, Jacob do Bandolim, Pixinguinha e Ernesto Nazareth, e também de reeditam de clássicos da MPB." 


E o disco está cheio de clássicos da MPB, com a de Baden Powell, de quem o grupo foi buscar uma inédita - "Introdução ao Canto de Yansã". Já de clássicos de outras paragens, além da música dos Beatles, temos My Favorite Things, de Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II. Há também mais ainda dos nossos clássicos, como "Vera Cruz" de Milton Nascimento e Marcio Borges. 


A próxima faixa cantada é com Lenine. A música escolhida foi "Atrás da Porta", cuja letra Chico Buarque começou a escrever meio bêbado na casa do autor da melodia, Francis Hime, depois de um almoço regado a muito vinho. A última parte da letra só foi feita depois de uma pressão de Elis Regina que queria gravar a música e ligou para Chico pedindo o resto da letra. E ameaçou, dizendo que iria gravar no dia seguinte, com a letra completa ou não. Chico terminou a letra rapidinho. 

Lenine dá conta do recado, canta a frase que havia sido censurada ("nos teus pelos", que foi substituída, durante a ditadura, por "no teu peito") e não cai na bobagem de trocar o gênero, cantando no feminino como é a letra original. 


O disco se encerra com mais dois shows instrumentais do Tira Poeira: "Consolação", de Baden e Vinicius e "O Morro Não Tem Vez" (Jobim e Vinicius) que inspira o grupo a juntar, pela terceira vez no disco, a música "Senhorinha", como um elo entre as faixas e para fechar um trabalho que recebeu grandes elogios. E nessas duas últimas eles não deixam por menos: trata-se de uma investida na música eletrônica, com uma turbinada com os grooves do DJ Sany Pitbull.  


Desde que o ouvi pela primeira vez, lá se vão uns dez anos, não deixo de me surpreender positivamente com o trabalho do Tira Poeira. Fugindo da mesmice, eles inovam na arte da tradicional MPB.


O CD pode ser comprado por aí, nos bons sites do ramo, e pode ser ouvido inteiro no YouTube em https://www.youtube.com/playlist?list=OLAK5uy_mt5C3dhFcc5SINQ57-N9q1ZG58pHjnJwY .

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