quinta-feira, 2 de junho de 2022

Ao tango e o flamenco do xote rasgado

 Por Ronaldo Faria


Tango e flamenco se misturam entre guitarras e bandoneón. Há pares a bailar no salão. Há frio, muito frio escondido sob as luzes da noite. Existe mistura de candelabros que luzem amarelo com um resto de lua cheia a brincar de céu. Vê-se bocas e braços entrelaçados. Suores e afagos. Temos vozes longe de algozes. Alforria de casais a beber-se de línguas molhadas e se embriagar de copos que passam de mão em mão sem vazar.

Há milagrosas pernas a se enroscarem e se jogarem entre pernas. Um cantar de impropérios vagos, um prelúdio de corpos a encorparem o pedaço de cama entre quatro quadrados. Em cada canto, um pesadelo guardado. Uma cortina fechada que descortinar um umbral fugitivo e solitário. Há saudade do que ainda há por vir.

Há saudade de dias que deixarão ambos longe, longitudinalmente largados, cansados de seguir esquinas e ruas translúcidas nos olhares promíscuos de prostitutas e precipícios. Como num porto onde poetas e profetas se deixam a navegar sem destino, sem tino, sem ir ou chegar. Por isso, no salão, a ordem é somente rodopiar para cá e para lá. Entre ter e largar. Sentir os pés no chão, anchos em parcimoniosas ilusões. Sentir o corpo do outro colado, lado a lado. Sem o gosto, amargo, da remissão. Por isso, nos salões ninguém fala. Há um silêncio ensurdecedor na sala. Como se a amada saísse pela porta rumo à eternidade com sua mala. No meio de tudo, o casal mudo. Apenas notas e acordes se entremeiam sonoros e sinistros. Todo o futuro ficou perdido lá na frente. Os músicos, à meia luz, se fazem em dó maior. Embriagados e roucos, não cantam mais. E assim homem e mulher transitam somente no universo próprio, loucos. Daqui, vejo apenas a morte como primeira e última consorte.

II

Um baião faz bailar sob o som da sanfona. Entre a lua e a luzidia chama do lampião, um triângulo e uma zabumba batucam os pés que mexem sem parar. Há versos no ar. Nordestinamente largados estão os corpos. Na peleja do suor e do toque, uma língua ou outra a se atracarem. Prometo, menina, dona da minha eterna sina, sempre te amar.

 Tempo, tempo, velho tempo, por que me persegues se eu não te conhecerei para a eternidade, lá longe e mais na frente ademais?

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