sábado, 4 de junho de 2022

Ao Zeca Baleiro

Por Ronaldo Faria


Cama, lama, insana trama. Drama, quiçá. Dogma e esmegma. Mira certa e exata no corpo da amada em torpor. Na noturna madrugada que se espraia pelas nuvens que cobrem a lua ao redor, me vejo num mundo longe, a tocar acordeom. Num cubículo perdido na cidade, na ansiedade plena, apenas o poeta perdido, fodido, na encruzilhada da trama e da artimanha, longe da manhã que será brilhante – ou não. No chão, deduzo caminhos e espaços, ascos, cadafalsos, cores na pujança que se esconde em um canto qualquer de mulher. Daqui, como o mundo de colher. Mímico, autofágico, calado em mim mesmo, ensimesmado. Eu sou eu mesmo ao quadrado. Ao cubo, deixo meus sonhos bisonhos, risonhos, tacanhos e loucos. Mortos ao tempo, sem lamento, à espera de um provento, de um vento que me leve daqui para ali – seja esse ali o mar da Bahia, quiçá. Parte incongruente feito semente que teima em gerar em si mesma uma nova vida florada, amarga e perdida entre devaneios e seios molhados à mingua da minha língua sedenta. Original, vaginal, vaticinal. Uma em várias, fálicas, desvirginadas e com hora marcada para fechar e sair. Entrar e sair. Nas saideiras da vida e da morte. Na mesa de um bar banido dirigido por um português que sonha que no Alentejo o mundo esteja tão perto quanto o quarto que se habita no próximo brejo. Na urina que despejo, o ensejo de não sumir no sumidouro entre um copo e outro. Nas cópulas que ovulam de semana em semana, seja na vontade ou no zelo que ensejo seja passado ou presente, a semente. Ausente, me antevejo perdido em mim mesmo. Feito solfejo, sumo em sustenido e mi bemol. E assim vou a caminhar e me lavar da baba da amada, dos cheiros que retenho imortais, tais e quais. E sou, e fui e serei.

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