quarta-feira, 6 de julho de 2022

Ao Arrigo Barnabé

 Por Ronaldo Faria

Como iniciar a noite que jaz fria e perdida entre um calendário e uma lua a murchar distante? Como terminar a insônia que vem com parcimônia me abraçar e apontar o descaminho a chegar?

Num bar qualquer estará a mulher, seminua, desnuda de emoções, servida em porções ou boquinha de anjo. Ao lado dela, um homem apaixonado e perdido nas estradas que nunca conseguiu trilhar. No meio dos dois, um copo a suar.
Na mesa, cheia de dramas e sonhos jogados ao léu, há um céu. Um céu esgarçado e jogado, ensimesmado, dilacerado e embriagado a mostrar às estrelas que o iluminam que o ébrio prefere a escuridão e o silêncio para se mostrar nu e só.
A bailar, um casal irrompe o lugar. E são passos próximos e distantes, como dois infantes a unirem pela primeira vez os seus lábios. Ávidos e afáveis, trocam carícias que farão das sevícias o derradeiro lugar, numa cama sem fronhas, sem frio, sem lar.
Na rua, translúcida aos faróis que se trocam em cores a cada cruzar, um cabaré abre as portas aos infortúnios do amor para descobrir que a todos nós resta apenas sonhar. No centro, música a girar, casais acasalam na sofreguidão do idílio e torpor.
N’algum lugar, como nas escritas de outrora, a incerteza do verso a correr letras e trovas, fonemas e prosas. Idílicos e sonsos carinhos a descortinarem a madrugada que se aconchega nos braços do dia que dorme para esquecer de raiar e sussurrar o adeus.

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