segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Pro Zé Geraldo

 Por Ronaldo Faria

Um dia deixarei de ser um zé ninguém à beira de uma praça para ser o pombo. De lá, do meio do nada, voarei ligeiro para lugar qualquer. Asa batendo entre asas, a arfar cantares do cantar. A vencer metros e quilômetros, hidrômetros e versos, aboios e terras de Bizâncio. Sem ânsia de buscar a felicidade, saudade, maldade. Sem vilipêndios, compêndios, adendos e sentimentos loucos. Somente corpos transgênicos e soltos que se bastem de fato e se catem entre suores e odores, vozes e sonhares. Coisa de louco a se fazer translúcido no luar, à beira do mar. Mecânico e filho da Macedônia a comer macadâmia e se melar. Senão, um jogral qualquer a se delimitar no corpo da mulher. E brincar de brincadeira maldizente, premente, presença de algum lugar. Entre viver preso e se largar. Qualquer coisa que se desfaça a criar. No deixar de ser zé ninguém, entre a vidência da finitude e a loucura de não se ter. Nação à beira do mar, mendigo a pedir esmola no mesmo lugar. Ela lá, eu aqui, nós por lá. Sem melodrama, sem ritmo de sol, lá, si, dó e lá. No néctar derramado, sonho sofismado, insólita despedida carcomida de presente e passado. A foda, o feto, o fato. O fátuo. A inglória desventura da aventura que se faz num quarto qualquer, entre quatro paredes e um sol que vem do céu, seja ele cinza ou azul, na rua ou no bordel. Se assim não for, que não seja. Nem tudo é o que a gente enseja. Às vezes um prato simples, uma breja. Quem sabe um brejo, um beijo, um baixo em sustenido e mi bemol. Senão, só eu e você. Piloto a dirigir um avião perdido na tempestade sem ter brevê.

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