sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

Para o João Bosco

 Por Ronaldo Faria

Tiro e bala para lá e para cá. Manda ver, saravá. Fique de frente para o crime, mas não esqueça que muito ainda tem que ser e outro tanto há de chegar. Para além do Pará, fica aqui e depois de lá. Pega a primeira prostituta que não dorme na labuta. E escuta: em algum lugar deve ter um pássaro a cutucar madeira e cantar. Deixa o corpo e deixe-se levar. Receita segura: madrugada e meia garrafa de uísque a tomar...

Não se lembre de prosopopeias, paródias ou gonorreias. Regozije-se de saber diferenciar a moça da velha. Viva as madrugadas. Dê vivas à vida. Acredite que é possível o destino voltar. Veja a amante como namorada loquaz. A enxergue entre fumaças quentes e fumacês labiais. Fale francês. Libere o desatinado ato de querer. Lave-se de sêmen e semântica, oratória e mera mixórdia. Não esqueça, no domingo, de ingerir a hóstia.

Hostilize a morte. Beatifique cada segundo vivido como o seu mais recente passado. Passe diante dos poderosos e diga de peito cheio: “Sou um ignorante e analfabeto, sim! E daí? Vai querer encarar?” Dê a cara para os tapas e esperneie como fosse seu único estertor. Eternize os bons momentos, quando ela estiver contigo, nua, gemendo, ouvindo e vendo. Penetrada e te engolindo de amor e prazer.

Se não souber o que fazer, não faça. Coma Doritos! Siga os ritos e rituais. Cante em duetos e se esconda nos próprios e próximos guetos. Grite! Amplifique o coro dos aflitos. Seja um número a mais, se isso lhe apraz. Aprecie o próximo como um gótico. Saiba onde fumar o derradeiro ópio. Em degredo, descubra a melhor forma de viver o ócio. Mande o síndico tomar no cu. Aos domingos, não se esqueça de orar e introduzir a hóstia.

Invada as madrugadas perdido de si e do mundo. Afinal, não há ninguém mesmo para resgatá-lo, ampará-lo ou escondê-lo entre grandes seios e lábios pequenos. O temor da solidão, saiba antevê-lo. E esconda-o num canto qualquer, esperando chegar a mulher. Se puder, robotize-se. Vire um genoma a ser estudado, um boi a ser castrado, um feto a ser abortado. Mas não espere a morte chegar. Se não puder impedi-la, só de sacanagem antecipe-se a ela. Quem sabe, de saco cheio pela sua traição, ela não te deixe viver!

E cante e dance. Pegue um travesseiro, o mesmo que ela usa nas manhãs de amor, e rodopie pelo minúsculo salão. Sinta o cheiro da amada e não se ressinta da falta da pele. Feche os olhos e, enquanto der e puder, creia que ela logo irá substituir as penas de ganso. Afogue-o, se tiver chance. Chantageie sua emoção. Diga para si mesmo que cinco contra um pode ser uma seleção. Mas, por favor, por tudo o que há de mais sagrado e secreto, derreta, aos domingos, a hóstia na sua boca, mesmo se essa tiver gosto de nada ser.

Feliz tempo novo a todes nós!

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...