quarta-feira, 20 de setembro de 2023

A dúvida, sob o som de Zé Ramalho na voz de Zeca Baleiro

Por Ronaldo Faria


-- Meu, achei que era pra mijar, mas de repente bateu um troção no meio. Surreal.

-- Ainda bem que a fila estava pequena. Também, às três da manhã só tem louco querendo mijar ou gente num bar.

-- Que os tempos se mantenham assim!

Os dois amigos tomavam a terceira saideira benzedeira dos tempos maus à sombra da árvore que não dá mais sombra.

O que assombra na madrugada é o silêncio ausente de vozes e trovas. Não há luz além de um ou outro carro notívago e vago. Não tem arco-íris. Sequer rima há. Aos que ainda bebem, um mundo à parte, o aparte entre a realidade e a fantasia. Aporte de nada. O porre que só no próximo amanhecer dará seu ar soberano. Aos que já dormem o sono dos injustos, nada a dizer. Talvez um nunca ver além das lentes sombrias dos óculos que há muito não veem ósculos entre um lábio e a vagina, no rumo da angina maior. Quem sabe a insanidade que faz esquecer do que é feita a emoção... No joelho, uma torção irrita o cagão.

-- Acho que está na hora pra casa rumar.

-- Bastião, traz a conta pro bar poder fechar!

-- Bastião, põe na mão do Tuco que o Tuco toca.

Ninguém sabe porque essa frase surgiu, mas ela veio de dentro do peito, como afeita fosse ao feito final. A conta veio. Soma de lá, diminui de cá, a festança dos números estava a se dar.

-- Trezentos e vinte e oito reais não está demais?

-- Tirando você ter vomitado no chão ao chegar, não...

-- Metade no débito!

-- A outra metade no crédito!

Ao fim, os dois se separam.

-- Meu Uber é Josivaldo.

-- O meu é Artur.

-- Nos vemos de novo na próxima semana?

-- Vamos ver... se vivos estivermos.

Em som de motor amiúde, os carros chegam. Cada um segue seu rumo. No prumo, o dono do bar cerra as portas, fecha o caixa e agradece pelos bêbados derradeiros entenderem de matemática como ele entende de the end, ou final. 

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