segunda-feira, 8 de abril de 2024

Sua máquina do tempo

 Por Ronaldo Faria


 
Um Ford passa ainda a rodar pelas ruas, mesmo que seu bigode já esteja raspado e branco. Brando em seu jeito quase manco, Belisário, o emissário da boemia circunscrita à mesa de bar, hoje bebe só na solidão de um adeus fugaz. Ele é o mesmo que fugiu com a toalha suja de batom da amada de milhares de escritos atrás. Mas, agora, tanto faz... É só ele, no enlevo que apenas a maior saudade traz.
O bonde se bandeia para um bairro qualquer onde os trilhos o possam levar. E Maricota viaja em seus pensares e pesares. Vestida de camisola de cetim, cabelos presos por presilhas mil, ela brinca de ser o desejo de mil homens. Embriagada em suas mágoas, vítrea na pele e virgem no sonhar, ela brinca como fosse somente efeméride atávica. Entre as suas pernas surge até hoje o cheiro bom de jasmim.
Na eletrola emerge o som de Nelson Gonçalves. De algum lugar alguém aplaude num salve a voz que surge de um gago embriagado. Aos poucos, transpassadas de solfejos e arpejos, as notas ganham sons externos, divagam e vagam pelas ruas e esquinas, amores mil e mil sinas. Certamente, na mente de um poeta, asceta de algo maior, a soberba da métrica sobressai ao limite de um mero dissabor.
No mundo que é sobremaneira infindo e infinito, retretas e serestas brilham nos coretos carcomidos de teias de aranha e descaso. Ao acaso, sonhadores imunes à tristeza ainda cantam suas sonoras e furtivas saudades. Para eles, a maldade é algo insone, mas que prefere ressonar nos fins de uma estrofe incólume. Da virada dos 50 do século já morto, torto, o escriba dedilha à trilha finda.
Uma modinha e uma ou outra serenata entoam o sortilégio da derradeira dor...

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