terça-feira, 25 de junho de 2024

Zé Geraldo

 Por Ronaldo Faria


A viola viola o sonho do sonhador como se fosse certo invadir os dias da dádiva que devia alegria para a orgia primeira. Na peneira, Januária prepara algo para dar saciez à fome que o esfomeado de emoções e paixões tem desde o dia em que nasceu. Feito Orfeu, dorme na ilusão de não acordar sob pesadelos tardios em fastios de quadrantes que nem os maiores e melhores amantes podem lembrar ou dar. À Virgem Maria, há pouco o que prometer. O terço há muito deixou suas contas por conta dos cantos sob os móveis para onde correram após se partirem. Para o restante de nós, no atroz perceber, milho aos pombos!
A cantoria se apercebe que quando a voz calar o fim logo chegará. Não tardará esse momento. No alento de se crer no Alentejo nunca visto, o tormento que o cantador traz na sua dor. O restante, pouco apraz. Talvez um desejo fátuo na fatalidade que existe entre aquilo que se quer e o que pode vir no viés. Talvez uma vez mais a acreditar que detrás da felicidade há muita coisa a se perder. Saudade premente, futuro nunca urgente, realidade pungente. Coisa de demente. Gemente sem semente a brotar. No clarear da picardia e falácia que é a vida, a inaudita e maldita inocência que a essência da poesia vivida teima e traz.
A bolsa de couro esquecida numa redação escolar, a sensação do viver e recordar, transbordar de sílabas e letras as iletradas certezas que um imaginário qualquer. A inóspita contramão de alguma fugaz imensidão, dessa que só se descobre depois que a embriaguez se faz canção. Na contrapartida urdida de ardida e tardia metonímia (seja lá o que isso for), a sintonia brejeira da perfídia. O canto que em cada canto escondido se faz acalanto, vira pranto. E pranteia o panteão frágil e fugidio que nos chega e se aconchega em saudades que o tempo faz fugir para que a dor que adormece o coração semeie celeumas do lado de lá do oceano.


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