domingo, 28 de setembro de 2025

O segundo disco dos Mutantes: uma revolução

Por Edmilson Siqueira


Eu já escrevi sobre eles aqui, mas nunca é demais voltar ao tema, com mais detalhes, afinal não é todo dia, nem toda década, que há uma revolução musical no Brasil. E ouvir novamente esse disco é como voltar num tempo que, apesar de uma ditadura sombria, trazia novos ares. E essa nem foi a maior revolução musical de todas, mas foi uma delícia. 
Com vocês: "Les Mutantes du Brésil: nouvelle tendances, nouvelles idées, nouvelle vie".  
A frase acima soou como um slogan na França em 1969. Era a descoberta, para o público francês do Midem (Mostra Internacional do Disco e Edições Musicais), do grupo brasileiro que estava revolucionando a MPB com sua ousadia e, claro, com novas tendências, novas ideias e nova vida.  
Eles chegaram na França logo depois de gravar o segundo disco por aqui: "Mutantes". E é esse o disco desse artigo. 
No final de 1968, ano da macabra estreia do AI-5, que apertou ainda mais os braços sangrentos da ditadura militar no Brasil, os Mutantes - Arnaldo Baptista, Sérgio Baptista e Rita Lee, mais o baterista Ronaldo Dias Leme e Claudio Baptista (irmão de Arnaldo e Sérgio e "mago em eletrônica") - estavam no estúdio, sob a batuta do também ousado maestro Rogério Duprat, gravando o que viria a ser um dos mais cultuados discos do pop-rock brasileiro de todos os tempos. 
E foi tão impactante, que Nelson Motta escreveu também no encarte: "A cada dia, nas voltas mais rápidas do mundo, mudam os conceitos, muda o sentido das coisas, muda a direção das emoções e a arte caminha cada vez mais livre, pelos mais estranhos e impossíveis caminhos. Ficou longe o dia da "Arte", e o mundo moderno decretou as inevitáveis ligações arte-consumo, arte-comunicação, arte-indústria, arte-massa, arte-utilidade: Mutantes." 
Não é pouco para um país cuja música parecia ter se "modernizado" com os novos compositores revelados e/ou consagrados nos festivais que, naquele ano de 1968 já estavam em franca decadência. Não que Chico Buarque, Edu Lobo, Vandré, Gil e Caetano tivessem sido passado para trás. É que os Mutantes, eles próprios participantes de dois festivais - um como coadjuvantes de Gilberto Gil em "Domingo no Parque" e noutro como autores de uma das músicas (que não ganhou prêmio algum), com aquele espírito anárquico-musical pareciam, a princípio, não terem lugar na "nova" MPB. 
Só que o talento foi maior que as dúvidas e suas músicas passaram a tocar nas rádios, os shows se sucederam e eles acabaram tendo grande participação no Midem da França, para onde voltaram no ano seguinte para shows e para gravar um disco - "Tecnicolor" - que por um desses mistérios insondáveis só foi lançado em 2000. Era um projeto pra internacionalizar o grupo - muita gente dizia, com certo exagero, que eles seriam nos novos Beatles. O disco tem músicas em português, inglês, francês e espanhol. Não sei por que não foi lançado à época, mas quando decidiram lançar, 30 anos depois, teve uma capa ilustrada por ninguém menos que Sean Lennon, filho de John e Yoko.  


O crítico Fábio Rodrigues comenta, no encarte do CD, lançado bem depois do LP, algumas músicas do segundo disco dos Mutantes, que tem um "caldeirão de ritmos, influências e misturas impressionantes". 
"Fanfarras épicas prenunciam a aparição de um exército medieval e apresentam um 'Sancho Quixote, mascando chiclete'. É um 'Dom Quixote' (Arnaldo Baptista e Rita Lee) brasileiro, buzinado pelo Chacrinha e fulminado pelos acordes de 'Disparada', de Geraldo Vandré e gargalhadas histéricas." 
A segunda faixa, 'Não Vá Se Perder Por Aí' (Raphael Thadeu, da Silva e Roberto Loyola) é um country com direito a rabeca e bons conselhos: 'Cuidado meu amigo, não vá se estrepar, não queira dar o passo mais largo do que as pernas podem dar'. E as mutações continuam. Em 'Dia 36' (Johnny Dandurand e Mutantes), o clima fica soturno, o vocal é distorcido - foi gravado através do canal de som de um órgão - os instrumentos estão fora de rotação como se alguém segurasse o disco no prato até pará-lo." 
Fábio Rodrigues prossegue: "As surpresas não param por aí. 'Dois mil e Um' (Rita Lee e Tom Zé) começa com uma viola, sanfona e vocal caipiras: 'Astronauta libertado, minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça. Dei um grito no escuro, sou parceiro do futuro na reluzente galáxia'. É dupla caipira, é rock pesado, é Mutantes e Tom Zé - que David Byrne descobriu mais de 20 anos depois." 
Além dessas, o disco contém: 
- "Algo Mais" (Mutantes), que foi a música que o grupo fez para um comercial da Shell. 
- "Fuga Nº 2" (Mutantes);  
-  "Banho de Lua (B. de Filipi, F. Migliacci - versão de Fred Jorge) 
- 'Rita Lee" (Mutantes) 
- "Mágica" (Mutantes) 
- "Qualquer Bobagem" (Tom Zé e Mutantes) 
- "Caminhante Noturno" (Arnaldo Baptista e Rita Lee) 
O CD é encontrado em alguns sites do ramo a preços razoáveis (100 reais no mínimo. Mas o LP já está na prateleira das raridades, com preços acima de mil reais quando em bom estado. 
No Spotify dá pra ouvir o disco inteiro em https://open.spotify.com/intl-pt/album/63cmfLGQUMuPRwgllZmz6a . No Youtube dá pra ouvir em https://www.youtube.com/watch?v=XyYAQHCnRu4&list=PL2R1HJ6BBn93Nb5ylNd9Q65fXzWV75sna

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