terça-feira, 21 de outubro de 2025

Adoniran, nosso poeta

Por Edmilson Siqueira




Se o Rio em seu Poeta de Vila, São Paulo tem o Poeta do Bexiga. Claro que não estou querendo comparar Noel Rosa a Adoniran Barbosa, mas que a qualidade de seus versos e sambas os une indelevelmente não resta qualquer dúvida. 
Evidentemente Noel é uma espécie de tesouro nacional do samba, mas Adoniran, tenho certeza, não fica devendo muito ao genial artista carioca. E vou parar por aqui essas tímidas comparações, acho os dois são geniais e vou partir para o que interessa: o disco "Adoniran, O Poeta do Bexiga", lançado em 1990 pela Som Livre, em meio às comemorações dos 80 anos que Adoniram faria neste ano, ele que nos deixou em 1982, aos 72 anos. 
O nome do bairro, que fica na região da Bela Vista em São Paulo, tem sido grafado como "Bixiga". Porém, na capa do disco está "Bexiga", que é a grafia original da palavra. 
A produção foi caprichada, afinal a Som Livre ainda detinha grandes poderes no meio fonográfico e podia trazer nomes famosos e bons para uma justa homenagem. Assim, CBS, BMG-Ariola, WEA, EMI-Odeon e RGE cederam artistas para o projeto. Lançado primeiramente como LP depois em CD, o disco deu liberdade para que os intérpretes colocassem sua marca em cada música. Das dez músicas, apenas em três delas Adoniran tem parceiros, que serão devidamente assinalados. 
A primeira faixa é quase clássica. Um programa da TV Bandeirantes juntou ninguém menos que Elis Regina e Adoniram passeando pelo Bexiga. Entre as interpretações dos dois, essa foi realizada num boteco: trata-se de "Tiro ao Álvaro", uma parceira de Adoniran com Oswaldo Moisés. Impecável, com a dose certa de humor e lirismo que os versos do poeta tanto exalavam. 
Logo a seguir, a interpretação mais que pessoal - e excelente, como era de se esperar - de João Bosco para "Saudosa Maloca". João inicia a música com versos de "Sampa" (Caetano Veloso), aquelas duas frases sobre a grana que São Paulo ergue e destrói coisas belas, referência mais que exata sobre a "maloca" dos amigos derrubada pelo "progresso". 
A terceira faixa, "Samba do Arnesto" parece, em seu início, que será mais uma interpretação dos grandes "Demônios da Garoa". Só que, após a introdução, quem aparece cantando o famoso samba é ninguém menos que Rita Lee. E ela não deixa por menos, cantando muito bem e brincando com a parte falada da música.


"Trem das Onze", talvez o maior sucesso de Adoniran, ganha ares melodramáticos na voz aguda de Tetê Espíndola e num acompanhamento de violões explorados ao máximo em suas sonoridades. Sim, a música perde todo aquele ar bucólico, mas fica interessante. 
A seguir, uma obra prima de Adoniran numa letra de Vinicius de Moraes. Os dois nunca se conheceram, diga-se. A letra foi feita por Vinicius na Europa e entregue a Aracy de Almeida, para que ela entregasse a quem quisesse. Pois ela deu para um improvável parceiro de Vinicius que surpreendeu a todos, colocando nos belos versos uma melodia maravilhosa. A faixa foi dada à cantora Luciana que teve um acompanhamento luxuoso ao piano de Hermeto Paschoal. (Aqui cabe um pequeno parêntese: Luciana é Luciana Souza, cantora brasileira que vive nos EUA e já foi nomeada ao Grammy Award seis vezes nas categorias de Melhor Álbum de Jazz Vocal (cinco vezes) e Melhor Álbum de Jazz Latino (uma vez) em 2003, 2004, 2006 e 2010 e duas vezes em 2013. E ganhou o prêmio Female Jazz Singer of the Year em 2005 e 2013 pelo Jazz Journalists Association dos Estados Unidos.) 
A faixa seguinte une o bom samba carioca do Fundo de Quintal com o samba paulistano de Adoniran na música "Aguenta a Mão, João", parceria com Hervé Clodovil. O Fundo de Quintal dá conta do recado com a mesma categoria de sempre. 
A grande Marlene não poderia ficar de fora. Mesmo sendo uma das maiores cantoras que o Brasil já produziu, sucesso inclusive na Europa (ficou quatro meses e meio em cartaz no Olympia de Paris a convite de Edith Piaf), Marlene nasceu na Bela Vista, em São Paulo, exatamente onde fica o Bexiga, cantado em prosa e verso por Adoniran. E ela se solta como filha de italianos - seu pai era romano e sua mãe calabresa - no samba "Acende o Candieiro". 
Macalé, um grande cantor sim senhor, foi incumbido de cantar a tragédia de Iracema. E ele traz todo seu talento dramático para a música, cantando lentamente, com a dose certa da tragédia da namorada atropelada pelo carro na Avenida São João. Um grande destaque é o sax soprano de Edgard Duvivier que, ao encerrar o arranjo inclui uma frase de Jobim/Vinicius ("o amor é coisa mais triste quando se desfaz...). Genial. 
O famoso "Samba Italiano", que fez muito sucesso na voz de um cantor italiano na Itália, foi gravado pela correta cantora Patrícia. Pra quem não conhece, Patrícia é cantora e compositora, que iniciou sua carreira muito jovem no grupo infantil Trem da Alegria nos anos 80. E dá conta do recado direitinho com o engaçado samba de Adoniran todo em italiano. 
Por fim, a décima e última faixa da homenagem - "Torresmo à Milanesa", parceria com Carlinhos Vergueiro - foi entregue à cantora Paula. Com arranjo de Rildo Hora e com coro e percussão, a singela obra da dupla acabou ganhando vestimenta nobre, com a correta interpretação de Paula. 
Como não há o sobrenome da cantora no pequeno encarte, não consegui desvendar quem é essa Paula. Mas ela canta bem e encerra de forma agradável essa bela homenagem ao grande Adoniran Barbosa, um paulistano de coração que nasceu em Valinhos quando a atual cidade era subdistrito de Campinas. 
O CD está à venda nos bons sites do ramos. Já o LP é meio raro e os preços estão mais salgados. E pode ser ouvido na íntegra no Youtube em https://www.youtube.com/watch?v=-w2vub0VYoE&list=PLos-v4VZHh4iA0HUqEFWMogGcigxHmkiI .

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