segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Como pode?

 Por Ronaldo Faria


-- Como alguém pode passar uma vida inteira sem amar a mais ninguém? Sem sentir a dor da saudade, sem descobrir a alegria da chegada, do desejo, do beijo roubado?
-- Assim, sem um amor, seja ele de qual gênero for?
-- Sim, desse jeito.
-- Não sei. Não consigo entender.
-- Nem eu. Solidão assumida como coisa pra vida toda deve ser triste pra cacete...
-- Se bem que deve ter suas vantagens. Existe tristeza maior do que a nostalgia da separação implícita, do não poder estar junto? Quem opta em não querer ninguém irá passar na Terra sem ter pisado no chão.
-- Tem razão. E só pra corroborar, Antenor desce duas caipirinhas de limão com choro dobrado de pinga!
Numa caixa acústica, dessas que se leva pra praia obrigando todos a ouvirem o que o DJ de final de semana quer, rolava uma seleção de Noel Rosa.
-- Pelo menos o som do cara é do caralho.
A tarde, encruada num cinza de chuva, caía quieta e presta para a poesia de quem acorda às quatro da manhã para esquecer de ter pesadelos.
-- Se bem que hoje eu sonhei que uma mocinha linda se entregou aos beijos comigo. Isso depois de dois pesadelos de tiro e perseguição.
-- Caramba, então você acertou na maisena.
-- Com certeza. E ela era muito linda, de rosto angelical e coisa e tal. E beijava bem, de língua e paixão.
-- Ou seja, voltamos ao nosso colóquio inicial: viver sem um amor deve ser a grande e maior dor.
-- É isso aí, cravou na mosca.
-- Aliás, tem uma porra de mosca enchendo o saco aqui há tempo. Antenor, ou limpa a bosta da mesa ou joga um inseticida decente no lugar!
De saco cheio, mas sabedor que a clientela era devota diária de lá e deixava os 10% sem faltar, o garçom esquece de mandar um sonoro “vão tomar no meio dos seus cus” e limpa a mesa com álcool 95 graus.
-- E Noel, como deve ter sido incrível o seu tempo aqui na Vila.
-- Tirando alguém morrer de tuberculose jovem...
-- É, tem razão.
Nas ruas próximas, feito hóstias no controle de um padre caquético e profano, bocas recebiam oferendas de línguas e dentes nunca ausentes nos deleites do amor. Mãos se espremiam em sutiãs difíceis de tirar, vestidos de babados e cheios de botões, braguilhas cheias de centímetros para descer e desatar.
-- E aí, mais umas?
-- Essas e quantas ou tantas mais puder...
No derredor, sem tempo ou dó, a noite brigava com o resto de sol para se entregar em música de mi bemol.
 
(Com o som do eterno e terno Noel Rosa)
 
Ps que não tem a ver com o texto acima, mas rimou: “Quando eu morrer não quero choro e nem vela, quero uma Nina Cadela e as minhas cinzas nas dela”.

Como pode?

 Por Ronaldo Faria -- Como alguém pode passar uma vida inteira sem amar a mais ninguém? Sem sentir a dor da saudade, sem descobrir a alegr...