Por Ronaldo Faria
-- Como alguém pode passar uma
vida inteira sem amar a mais ninguém? Sem sentir a dor da saudade, sem
descobrir a alegria da chegada, do desejo, do beijo roubado?
-- Assim, sem um amor, seja
ele de qual gênero for?
-- Sim, desse jeito.
-- Não sei. Não consigo
entender.
-- Nem eu. Solidão assumida
como coisa pra vida toda deve ser triste pra cacete...
-- Se bem que deve ter suas
vantagens. Existe tristeza maior do que a nostalgia da separação implícita, do não
poder estar junto? Quem opta em não querer ninguém irá passar na Terra sem ter
pisado no chão.
-- Tem razão. E só pra
corroborar, Antenor desce duas caipirinhas de limão com choro dobrado de pinga!
Numa caixa acústica, dessas que
se leva pra praia obrigando todos a ouvirem o que o DJ de final de semana quer,
rolava uma seleção de Noel Rosa.
-- Pelo menos o som do cara é
do caralho.
A tarde, encruada num cinza de
chuva, caía quieta e presta para a poesia de quem acorda às quatro da manhã
para esquecer de ter pesadelos.
-- Se bem que hoje eu sonhei
que uma mocinha linda se entregou aos beijos comigo. Isso depois de dois pesadelos
de tiro e perseguição.
-- Caramba, então você acertou
na maisena.
-- Com certeza. E ela era
muito linda, de rosto angelical e coisa e tal. E beijava bem, de língua e
paixão.
-- Ou seja, voltamos ao nosso
colóquio inicial: viver sem um amor deve ser a grande e maior dor.
-- É isso aí, cravou na mosca.
-- Aliás, tem uma porra de
mosca enchendo o saco aqui há tempo. Antenor, ou limpa a bosta da mesa ou joga
um inseticida decente no lugar!
De saco cheio, mas sabedor que
a clientela era devota diária de lá e deixava os 10% sem faltar, o garçom
esquece de mandar um sonoro “vão tomar no meio dos seus cus” e limpa a mesa com
álcool 95 graus.
-- E Noel, como deve ter sido
incrível o seu tempo aqui na Vila.
-- Tirando alguém morrer de
tuberculose jovem...
-- É, tem razão.
Nas ruas próximas, feito
hóstias no controle de um padre caquético e profano, bocas recebiam oferendas
de línguas e dentes nunca ausentes nos deleites do amor. Mãos se espremiam em
sutiãs difíceis de tirar, vestidos de babados e cheios de botões, braguilhas
cheias de centímetros para descer e desatar.
-- E aí, mais umas?
-- Essas e quantas ou tantas mais
puder...
No derredor, sem tempo ou dó, a
noite brigava com o resto de sol para se entregar em música de mi bemol.
(Com o som do eterno e terno Noel Rosa)
Ps que não tem a ver com o texto acima, mas rimou: “Quando eu
morrer não quero choro e nem vela, quero uma Nina Cadela e as minhas cinzas nas
dela”.