sábado, 20 de agosto de 2022

Bons tempos do Bons Tempos

Por Edmilson Siqueira 


Dia desses vi um post no Facebook, colocado pelo velho amigo Newtinho, de uma das músicas do DVD que o Grupo Bons Tempos gravou com o show em homenagem a Ari Barroso. Newtinho era o violão do grupo e fazia parte dos vocais. O DVD foi gravado no Teatro do Centro de Convivência Cultural de Campinas, em agosto de 2005, e eu estava na plateia (até apareço num passeio da câmera), ouvindo emocionado e aplaudindo o espetáculo que o grupo campineiro produziu tão bem sobre um dos maiores compositores brasileiros de todos os tempos.  


Além do DVD, que guardo com carinho e assisto de vez em quando, o show foi também para o CD, gravado ao vivo. E foi tudo coisa fina. Albino Pinheiro coordenou o show que estreou no Teatro João Caetano, no Rio e o roteiro ficou a cargo de ninguém menos que Sérgio Cabral, o jornalista e autor da melhor biografia sobre Ari Barroso. 

O Bons Tempos tinha Alfeu Júlio, Caio Piccolo, Chiquinho do Pandeiro e Elder, além do já citado Newtinho Gmurczyk. Marcaram época em Campinas e, com esse show, foram conhecidos em todo o Brasil. 


A parte musical foi muito bem cuidada, como era de se esperar de um grupo do nível do Bons Tempos. A direção foi entregue a Ricardo Matsuda. Goio Lima tocou saxofones e flauta transversal. Guilherme Ribeiro, piano e acordeom. O trombone ficou com Lucimar Perez. Pepe D'Elia foi o baterista. Rubinho Antunes se incumbiu do trompete e do fluguelhorn. E Matsuda ainda ficou com contrabaixo. O espetáculo teatral tinha ainda cenários grandiosos e um ator, Fábio Sampaio, representando Ari Barroso, passeando pelo palco como se estivesse conferindo a música da moçada. 


Segundo um texto assinado pelo grupo, na contracapa do CD, "...A gravação deste CD é a concretização de uma longa história de amor entre o Grupo Bons Tempos, Sérgio Cabral e a rica obra de Ari Barroso".  


A escolha do repertório foi difícil e fácil ao mesmo tempo. Difícil porque Ari tem muitas músicas que podem ser consideradas obras primas, mais do que caberiam num show ou num CD. E fácil porque qualquer música que se escolhesse seria muito bonita, sempre.  

Assim, o show se inicia com "Rio de Janeiro" e logo de cara a plateia aplaude em cena aberta, pela beleza da abertura do espetáculo. A segunda música já entra no lado romântico de Ari, e inicia a apresentação de alguns clássicos do repertório do compositor mineiro:  "Maria" parceria com Luís Peixoto, levada com maestria pelo grupo. 

Outro clássico, "Na Baixa do Sapateiro" vem a seguir. Declaração de amor (uma delas) que Ari faz à Bahia que o deslumbrou quando a conheceu e a ela dedicou muitas músicas. "Faixa de Cetim" acompanha esse deslumbramento, aqui mais ainda escancarado, porém sem perder a qualidade. 


"Terra Seca", uma espécie de samba-afro, denunciando os horrores da escravidão, fez muito sucesso à época. As duas faixas seguintes, dois grandes sucessos de Ari, "Pra Machucar Seu Coração" e "Morena Boca de Ouro", serviram para revelar mais ainda a qualidade dos músicos que acompanharam o grupo no show, pois são apenas instrumentais. 


O grupo volta na sétima faixa, uma parceria de Ari e Luís Peixoto: "Por Causa Dessa Cabocla", um solo vocal de Caco Piccoli, o "crooner" do grupo. "Folha Morta", um samba-canção que será ouvido ainda por alguns séculos, tal sua qualidade, mostra a excelente afinação do grupo, num ótimo arranjo vocal.  


A partir daí o espetáculo entra na sua parte final, com cinco sambas que eternizaram Ari como mestre da MPB definitivamente: "É Luxo Só" (com Luis Peixoto), "No Tabuleiro da Baiana", "Os Quindins de Iaiá", "Rancho dos Namorados" (com Vinícius de Moraes) e, por fim, a música escolhida para, num longínquo 7 de setembro, ser tocada em milhares de rádios dos Estados Unidos na mesma hora e que até hoje é uma espécie de hino informal do Brasil: "Aquarela do Brasil".  

Não encontrei o CD nem o DVD à venda nos bons sites do ramo, mas dá pra assistir a vários trechos do espetáculo no YouTube. 

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