sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Para a Verônica Sabino, outra vez

 Por Ronaldo Faria

Escuridão à voz de Verônica Sabino parece um canto de acordar de um sabiá.

Não há muito mais a seguir pelo asfalto que esfria depois da quentura da tarde perdida e final. Mas o homem vai com um pé depois do outro a cruzar o que estiver pela frente. À fronte, um universo que se redime e se encontra num verso. Prosaico, o mundo se entrega às colchas e retalhos de uma cama onde dois corpos se refastelam em toques e ósculos. De óculos, o bêbado da cena enseja perder-se do depois. Do alto do prédio, uma mulher canta bossa-nova. A tristeza? À essa, uma ova! Nas reentrâncias do mar, entre uma onda dispersa e a pressa que para de correr, o barulho é só marulho, desses que o Rio de Janeiro traz aos ouvidos do mais insensato desejo brejeiro. Afinal, se não há mais nada a varar pelo infausto asfalto, que a vida morra à toa. Por aqui, no interregno da ilusão, um barquinho desmaia a deslizar...

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