quinta-feira, 3 de novembro de 2022

À vila de lobos

 Por Ronaldo Faria

O trenzinho do caipira vem devagar, entre trilhos e trilhas sobre ferros e madeira queimada até o maior negror da fumaça que foge furtiva pela chaminé, margeando morros e miragens. Num pedaço do despedaçado cedro, misturado ao credo do maquinista de que um dia irá chegar, sobe o cheiro de vida e morte.

No campo o Saci Pererê pula e se esperneia, serpenteia difuso e confuso sem saber o que dizer. Do seu cachimbo sai um lamento que o vento destrói em brisas que chegam das terras molhadas do além-mar. No lugar, um ritmo transversal entre o que pode ser o bem e o mal. Um lumiar de incertezas certas e presenciais.

Aos acordes do violão tocado em sofreguidão, o lamurio do poeta que se vê profeta da própria morte, à sorte. Um desbragado trago, um exaurido afago, uma ignóbil desfaçatez ao tocar a tez da amada, calada. De Amsterdam, o sabor em prelúdio que os acordes acordam como fossem um galo a cantar seu estertor.

Na viola, o mundo vira mundão no tanto de distância que arrodeia. Não distante, o luar se engrandece de passarinhada a buscar seu pé de árvore dormida. O gado geme de desejo de ruminar e a pajelança morre à chegança do calar. Entre os lábios grudados, os mistérios cansados e os corpos largados.

No seu canto pequeno e sem lampião, o poeta dedilha a parelha que existe entre a pipa que voa e a saudade que avoa. Aos poucos, o pouco que ficou ressoa no silêncio pênsil entre a solidão e a canoa. No rio, o barquinho desce ao sabor do seu mundo, das correntes e do que for à toa. Em meio a tudo, o peixe até destoa.

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