terça-feira, 11 de abril de 2023

Zecando num baleiro

 Por Ronaldo Faria


 

Metamorfose de borboleta a borboletear por aí, a ir e voltar, voar e revoar feito vento de soleira de janela, que para no vidro que tudo vê e nada deixa entrar. Feito trejeito da performance de bailarina que se despe de purpurina. Um pouco de angina malfadada e deformada em pruridos. Passeios e anseios de ter um corpo à cama e postergar por medos e ensejos o último e derradeiro momento isento de culpa e degredos. Desejos jogados na estrada que nunca volta e teme a beira que se esgueira na curva que mostra um infinito derrear. No fundo do coração saber-se-á que espaço não há. Não há lugar para retornar, roubar de beijos extraviados, revirar gavetas carcomidas pelos cupins que cheiram a jasmim. No mundo de universos paralelos os versos não têm início ou fim. Não se transmutam na Babilônia com odor de amônia e nem acordam de um sono perpetrado pela insônia. Simplesmente viajam em andrajos de alma como almanaques escritos para vender a ilusão que se perfaz acabrunhada como a voz esganiçada de qualquer cunhada acanhada. Nas vísceras que vicejam um dia desgarrarem do corpo, acalantos de prantos partidos e jogados a léu numa lenda esquecida nas páginas do livro nunca escrito, proscrito nas entranhas da estranha senhora a gemer e gritar. “Venha, vida! Venha me matar!” Do alto da igreja, o padre vocifera feito boi-fera a ferir o silêncio que procrastina a derradeira sina. E o lugar adormece e padece feito o menino que corre pelas ruas empoeiradas que um dia viram os passos da inocência trilhar...

(Pro Zeca Baleiro)

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