sábado, 5 de agosto de 2023

À Sivuca

Por Ronaldo Faria


Um pássaro passa rápido pela ravina. E vem e volta feito saudade que não tem sol e nem sina. Voa como uma nota se denota na música que ecoa perdida nos ouvidos da vida. Brinca de coisa rara, errática, e se espalha pelo espelho que é somente passado a se reviver. A ver o que não foi e aquilo que restou, o homem pensa em chorar mais uma vez. Mas qual, não há o que dizer. A dissonância não cobre a grama seca de fogo e nem o carcará sangra a ovelha que pasta na ravina. O mundo não muda à vontade divina.

No curral, o gado olha bovinamente o povo que passa por detrás da cerca. Longe de lá, mas acerca do problema, o padre pede que a chuva se espraie além do céu para chegar à terra onde o barro escurece a flor morta de um tempo que não floresce. Quantas paixões não deixaram de se embrenhar entre corpos e carícias por causa de uma rapsódia que a orquestra do destino se negou a tocar? Deitado no alpendre, o cachorro velho e fraco vê seus últimos dias ultimarem aquilo pouco que o universo lhe deu.

Mas, na casa de farinha, dedos, suor e braços amparados na grande colher de madeira ceifam de futuro a mandioca ralada e branca que crispa de calor sobre o tacho onde a lenha grita sua última dor. Nalgum lugar um vaqueiro grita para o bezerro fugitivo e cheio de medo voltar. E corre entre árvores secas em que espinhos tentam furar o couro que o protege. Com o bucho a agrar nas esporas, o cavalo segue sua sina. No embate em penumbra que ilumina o resto de luz solar, a saudade de um ou outro, do mesmo lugar. 

“Vem, volta logo, meu corpo e minha sede de beijos te esperam num só esperar.”

Grito de Maria, na caça de pau a pique, a acender o lampião que tenta apenas alumiar e ser...

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