quarta-feira, 6 de setembro de 2023

Vendaval e Tom Zé

Por Ronaldo Faria


O vento ventarola nas folhas verdes que sobreviveram ao inverno. Há, decerto, um credo que o mais incrédulo dos amantes sabe ser o decreto final. Fugaz, o vento entra entre as frestas da janela e volteia até chegar o corpo da amada que se despiu depois da fala definitiva: “Um beijo assim? Achei que ia me pegar na bunda. Vou tentar de novo”.

A brisa que corre entre esquinas lambuzadas de lânguidas línguas e goles de cerveja que vivem na madrugada a sua última sina são a crença de que ainda há muito a se viver. Os prédios, no prenúncio de que o trabalho existirá a longas trilhas, aos poucos se apagam. Irão trocar a luz de lâmpadas por cobertores e o negror que postes ainda dão.

Na solidão que só a imensidão do amor dá, soa um tanto de entretanto, talvez e quem saberá. Nenhuma ave tenta voar. Com o vento e o frio que brincam de lugar, todas se aquecem como dá. Os caules, mínimos e pelados, não há muito onde se esconder. No quarto, o homem sorri com o sorriso dela. “Deus, nos dentes há tanta procela!”

Na vitrola, Tom Zé diz que a ilha não tem fuzil. Tomara que amanhã o céu seja de anil. Se não for, digamos juntos: “O tempo merece ir para a puta que o pariu!” Fade-out: um carro freia na esquina. Por pouco não se torna estatística a mais. Ao colocar o agasalho o homem descobre que a estática não é invenção de Orfeu. Os pelos que o digam.

No colorido doído e doido que percorre veias e neurônios, vê-se brilho reluzente e pungente do lado de fora. Aforismo à parte, cada passo parece envolto em amores e amoras que descansam para brotar. Do cubículo da criação, o poeta perpetra o pródigo alvorecer. Amanhã chegará o que não sabemos nem ao menos crer ou ver renascer.

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