sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Pedro Salomão 2

 Por Ronaldo Faria

 


Já fazia meia hora que Horácio esperava Cleonice. Ainda bem que o frio e a chuva fugiram da previsão prevista e se esconderam em algum lugar. Certamente ficaram a se amar. Numa mistura de gélida paixão e folhas de um roseiral qualquer a se despetalar. Horácio, logo ele que disse minutos mil antes que não iria escrever. “Essa tentação de teclar será a proximidade da morte e o desejo de falar? Ou apenas um flanar de penduricalhos de emoções?” Ele não sabe responder a si mesmo e nem aos poemas do pernoite sagaz e fugaz.
Horácio, quase patético como um ser que ama aquilo que é o antônimo antagônico no antropofagismo de cada um, vira e remexe seus salamaleques. Relembra do passado, transita entre a loucura e a lucidez. Na desfaçatez de um tempo onde o pouco era muito, cavalga na madrugada tragada de tragos e afagos múltiplos e místicos. Multiforme, numa metamorfose que nunca se faz ou se fez, vira um andarilho do Vale de Inês. Mas não era Cleonice a esperada? Como diz o ditado, a fila andou no desandar do pérfido andor.
Ignóbil sobrevivente de alguém vivente e breve, desses que conta os dias com ampulheta que nem areia tem, vai a bagunçar seus momentos que fritam em tormentos, esculhamba lembranças que se desdobram em torvelinhos. É apenas ele. Um pedaço de limiar de um em dois. Partido em décadas atrás. Na frase mal dita, maldita quiçá. Que fez e desfez a tez para um recriar de olhos que já não se enxergam, flácidas peles que brincam de vencer o tempo como as árias do compositor que não sabe diferenciar partitura de partida.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...