quinta-feira, 7 de março de 2024

Entre Dominguinhos e Ferragutti

 Por Ronaldo Faria

A vida é uma brincadeira efêmera e etérea como a fêmea a parir seu inferno que jorrou em sangue e placenta na urgência que a chegada da nova vida dá. E voou, revoou, fez revoada e louvor. Passeou entre trilhas, caminhou em andrajos, fez-se pedaço de terra esturricada e inclemente, trouxe cheiros rotineiros e bem-vindos, todos ouvintes de um mistério que nem nós mesmos sabemos qual ser ou mesmo o que será.
Na mesa que nunca foi farta, a fátua certeza que o universo de versos não dá. Na solidão que a imensidão faz parecer finitude em inócuo desamor, uma estrada de pássaros que não cantam, cigarras mudas, mútuas brincadeiras sem meninos e meninas, num mundo onde as cores esqueceram o que é primário ou secundário. Na sanfona, o antônimo que o anônimo tresloucado e apaixonado não sabe se faz ou refaz.
Ter que fechar a janela ínfima do cheiro da noite para que o inseto de asas e corpo imensos não se bata e morra à luz artificial, uma fantasia que luta contra a insanidade que a idade traz. Voltar, nada volta, mesmo que em volteios e sortilégios egrégios que a loucura traz. Agora é fugir do mau agouro que na lucidez sempre se faz.
Raízes do Nordeste que o pior cabra da peste perfaz. Apenas a saudade de um menino que, em desatino, descobriu no sertão que o senão é melhor do que o portão eletrônico e afônico a anteceder a ilusão. No carro carregado por bois que deixaram de morrer para sofrer, cancelas e selas a esquentar o corpo de cheiro bom suado.
A brincar de sobreviver, a parca felicidade que a idade deixa transparecer. Quem sabe um ser se fará. No lugar que a mandioca vira farinha que se come sem dó, o tacho está cheio de esperanças nunca chegadas. A chegança da realidade é apenas mera mentira. Não caberá a nós, meros e mortais, saber a verdade de nada ser.
 
II
 
Incrédula célula que um dia irá se transmutar e matar a pouca vida que há, quem te mandou nesses corpos viajar? Quem te fez refém de outro mundo que sempre foi infindo e surdo às maldades do mundo? Quem te introduziu e te omitiu da saudade sem maldade que o louco sonhava ser verdade? Na ilusão de nada saber sobre este ser que nunca fomos, dicotômicos e encefálicos (fálicos quiçá), viramos espelhos de nós mesmos à espera de um dia morrer. Na essência do nada nadaremos no oceano que inexiste por tão seco de emoções ser. 


III
 
Boa noite à noite. Essa coisa dúbia e inútil, fértil e cristalina. Criadora de amores e dores.  Cheia de canções e unções. Cancioneiro próprio de quem só escreve pra si. Na artimanha de um convite da melhor estirpe, a certeza de que o jornalista sobrevive. A gente é cabaço e bobo, mas tem décimo sentido...

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