quarta-feira, 27 de março de 2024

Transição musical

 Por Ronaldo Faria

 



O silêncio, esse mestre do aprendizado, chama a chama que ainda possa existir no poeta que submerge em si. E amplifica passagens que só ele viveu, transmuta corpos nus em imagem nenhuma, passeia nas paisagens que o desejo do ensejo maior não traz mais. “Garçom que não pedirá os dez por cento, espere. O copo ainda está a transpirar e uma espuma a brindar.”
O que emerge entre um e outro gênero musical? Há um santo metafórico e onírico que faz a junção de notas e versos? Ou o próprio som que envolve o quadrado pequeno e senhor de si mesmo, alcoolizado, faz seu ritmo no lugar? Quisera saber para eu mesmo entender no criar. Infelizmente, a resposta nunca terei.
-- Obá de biabá caô, obe obá!
Um piano demove sons de seu dedilhar. Na voz feminina, no passado ranzinza que não quer querer ir embora, a aurora ainda tem muito para chegar. E relembra amores mil, corpos jogados em si, entrelaçados e untados de desejo e torpor. Na dor da separação, a unção de sonhares e lumiares. Na cozinha, a geladeira grita que o gelo chegou. “Como beber cerveja presa em si agora?” Na sorte dos notívagos, ela jorra no copo feito fosse cachoeira de paixão. No crer que o passado pode voltar, a voz se atira no fim de qualquer peça que nunca foi aos palcos. Cadafalsos ficaram no caminho. Nos cheiros que se perderam, um bar se embriaga de delírios e letras escritas num guardanapo qualquer. Faz-se princípio e fim. Dorme numa esquina dos confins. Sai, enviesado, pelas estradas dos confins. Vira tudo e coisa chinfrim. Mas fica onde está, no emaranhado de um coração sem razão. Que sobrevoa as décadas efêmeras que deixaram de ficar, sobreviveu em universos em que éramos o rei e o vassalo, parou no tempo que não se deixa derrear. Nos segundos profundos, aquilo que nos coube ser.
-- Tenho sede a embalar sonhos...
Agora, sem ágoras e palanques, sem redes sociais a viajar por todo o mundo, vou apenas, a duras penas, relembrar aquilo que se foi. E acabou.
 
II
 
Cadê você? Cadê eu? Cadê nós? Onde deixamos o universo se tornar o verso final? Em que esquinas rompemos o juntar que se deu depois? No erro que não há como recuperar, do poeta romântico e parnasiano, daquele que nada sabia da vida (e agora sabe?), a dizer vá. Só que a história de cada um de nós não deixa parágrafos a escrever. Dá um ponto final. Sem final. Ao menos no que se foi. Na imensidão da ilusão, a certeza de que não existe servidão...
 
III
 
A ouvir Márcia Castro que eu um dia comprei o CD e nem sabia que o tinha. Certamente, se a venda de CDs exististe ainda, talvez tivesse comprado de novo por não saber tê-la. Como ela mesmo canta: “Chupa e agradece”.
 
IV
 
Só, somente só. Arriba nós! Que o próximo segundo nos livre de nós de uma senhora ou mais. Abre a porta e janela e vem ver o sol nascer...

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