segunda-feira, 10 de junho de 2024

A Sinfonia Paulistana de Billy Blanco

 Por Edmilson Siqueira

 
Em maio passado, o compositor e cantor (era arquiteto também) Billy Blanco, nascido William Blanco Abrunhosa Trindade, completaria cem anos. Morreu em 2011, aos 87 anos. Por conta desse centenário, andaram saindo algumas homenagens a ele, mui merecidas, por sinal, em páginas de música no Facebook. Acessei duas delas e, em ambas, a relação de trabalhos de Billy - grande músicas, parcerias gigantes, belos discos - omitia simplesmente uma de suas obras primas que é a "Paulistana - Retrato de uma Cidade".
Não entendi o motivo dessa omissão e, numa das publicações até botei um comentário sobre o disco, um LP gravado em 1974, com quinze músicas que, pela sua qualidade e importância, não pode ficar de fora sempre que se escreva um texto, por menor que seja, sobre o compositor paraense.
Billy Blanco nasceu em Belém, estudou Engenharia por lá, depois Arquitetura no Mackenzie, em São Paulo, mas acabou se formando na Faculdade de Arquitetura e Belas Artes do Rio. Isso é o que se sabe sobre o arquiteto Willian Blanco Abrunhosa Trindade. Sobre o músico e sua vasta obra (cerca de 500 músicas, das quais 300 gravadas) sabe-se muito mais. Foi parceiro de Jobim, Baden e até de João Gilberto entre outros.
Mas é sobre a Sinfonia Popular Paulistana que se trata esse artigo.
Ela foi escrita a partir de um desafio de sua mulher, Ruth Egydio de Souza Arranha (depois y Blanco Trindade), de família tradicionalíssima em São Paulo que lhe disse que ele só fazia música para o Rio de Janeiro. Depois dessa "reclamação", foram dez anos construindo a sinfonia que veio a ser gravada em 1974.
Depois dos dez anos compondo as músicas e as letras, Billy conseguiu reunir um time de primeira categoria da música brasileira para gravar o disco. Pra começar, a produção foi de Aloysio de Oliveira que, na contracapa do disco revela: "Gravar a Paulistana não foi uma tarefa fácil. Basta que vocês imaginem que foram necessárias várias semanas de um planejamento perfeito entre Bily Blanco, Chiquinho de Moraes e eu". O Chiquinho citado é o grande maestro e arranjador, responsável por dezenas e discos da nata da MPB. 
As várias semanas de planejamento abordavam a gravação de vários cantores - alguns em São Paulo outros no Rio - a contratação de um coral e a inclusão na agenda da famosa orquestra de Chiquinho, dos dias de gravação. A orquestra viva gravando outros discos, tocando em programas de tevê e em bailes pelo Brasil afora.
É o próprio Aloysio quem contra como foi a coisa: "A coordenação entre orquestra e cantores do Rio e de São Paulo, a gravação de diversas fases da orquestras, enfim, uma infinidade de pequenos problemas que aos poucos foram sendo resolvidos".
O resultado é precioso. Billy Blanco, num texto quase poético, tenta explicar os motivos, além da "bronca “da patroa, para fazer a sinfonia: "Por que São Paulo? Porque ela existe dentro de mim desde o instante em que abrigou, há 30 anos, mais um nortista, um paraense buscando régua, tendo viola e que sabia sobre as montanhas somente aquilo que aprendera na geografia de sua escola; porque Anchieta merece tanto, porque Bartira merece um canto pelas famílias dela geradas..."


O disco abre com "Louvação a Anchieta", na voz de Pery Ribeiro, seguida de "Bartira", com Claudete Soares, completando, logo de cara, a homenagem citada na entrevista ao que ele considera os dois grandes alicerces da cidade.
As chuvas, marcantes em determinadas estações provocadas pelas monções, e que orientavam os bandeirantes na hora da partida da capital paulista, entram no disco com o nome de "Monções". É a terceira faixa na voz segura de Pery Ribeiro.
O coro reunido no disco trabalha na quarta faixa -"Tema de São Paulo" - acabou cantando muitos anos na Rádio Jovem Pan, em seu Jornal da Manhã, mas não foi essa música que mais fez sucesso. Foi outra e por causa do mesmo jornal radiofônico.
Uma das maiores cantoras que o Brasil já teve, Elza Soares, entra na quinta faixa com "Capital do Tempo". É um samba meio estilizado, moderno pra época, que reverencia a mistura de povos na capital paulista.
A sexta faixa teve o solo vocal de Nadinho da Ilha e evoca uma das grandes preocupações do paulistano, talvez a maior: "O Dinheiro" é o nome da música.
Pery Ribeiro volta com um retrato da noite paulistana, citando várias casas noturnas - Catedral, Beco, Teleco-Teco, Ton Ton, La Licorne - que foram famosas à época.
A sinfonia prossegue com Claudete Soares com "O Céu de São Paulo", que canta o cotidiano apressado e o nublado céu da cidade, fazendo referência novamente ao início do tema já cantado: "São Paulo que amanhece trabalhando..."
A frase é a dica para a música seguinte que, durante 43 anos (sim, 43 anos!) foi o tema de abertura do Jornal da Manhã da Jovem Pan, popularizando-a de uma forma que o próprio compositor jamais imaginou. "Amanhecendo" é obra-prima que se emenda magnificamente com que virou quase um hino a definir São Paulo que é "O Tempo e a Hora". Quem não se lembra do "Vãobora, vãobora / Olha a hora, vãobora..." com Claudete, Pery Ribeiro e Coro?
O grande Miltinho, um incomparável cantor, se incumbe de cantar "Viva o Camelô", um samba que segue a linha dos regionais, com acompanhamento de violão, violão de 7 cordas, cavaquinho e pandeiro.
As práticas esportivas são o tema da próxima faixa, com Elza Soares louvando Pelé, Rivelino, Ademir (da Guia), Eder Jofre, Fittipaldi e a São Silvestre, tudo muito bem casado num samba bossa nova.
Claro que a juventude que tomava ruas famosas de São Paulo não poderia ficar de fora. "São Paulo Jovem" e "Rua Augusta" se incumbem de registar a moçada, com temas que se aproximam do pop, cantados por Pery Ribeiro e pelo coro.
O disco se encerra com "Grande São Paulo", com Pery Ribeiro e Coro, uma ode a todos os principais bairros desse conglomerado que se orgulha de ser o maior da América do Sul e um dos maiores do mundo.
Enfim, um disco essencial na carreira desse grande compositor brasileiro Billy Blanco.
O CD deve estar por aí ainda nos bons sites do ramo e pode ser ouvido na íntegra no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=BnDMmWyoZ1I&list=PL9SntIdCXKwh9gzwsqYOe6yQrf9s950Rw

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...