terça-feira, 11 de junho de 2024

Samba com Zeca Pagodinho

 Por Ronaldo Faria


O samba sombreia as notas que saem do tamborim e da cuíca que ecoam na sombra da mangueira frondosa, como coisa de verde e rosa. Na voz do cantor, o algoz da solidão. Na alegria que pega como alergia passageira, a orgia nunca esquecida, a parcimoniosa lembrança das tranças de Olívia a caírem sobre o seu rosto caído na cama de lençol branco e quarado. No barraco de telha quente e pedaços de madeira que, como o nome diz, são femininos, José, da saia amargo, ouvia o pagode rolar.
Contou cada nota no bolso e viu que uns três litrões rolavam fácil. E depois, em roda de samba e bêbado sempre rola a aquele que resolve pagar uma a mais. E de saideira em saideira o copo faz o introito, o meio e o fim. José partiu resoluto e impoluto para ver a poeira subir no passo da cabrocha. A ver Olívia até broxa voltava à vida. Logo, melhor estar no meio das notas e dos acordes, das estrofes, mesmo que falhas, em migalhas, do que permanecer em casa, fechado por cadeado comprado em promoção.
Quando José chegou, a rapaziada que rolava o som fez até rima especial: “José, cadê você, deixa de só se foder!” Ele riu, pegou um copo, despejou a cerveja e rumou para sentar num caixote desses que o português compra o bacalhau vencido depois de muito sermão. Afinal, quem vai saber que a diarreia veio depois do bolinho frito com tanta atenção? No sonho púbere que a pureza destrona a mágoa com a batucada que envolve o coração, José não sabe sequer se existe essa tal de perene solidão.


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