terça-feira, 27 de agosto de 2024

Nos tempos detrás

 Por Ronaldo Faria


No fundo do salão de uma corte qualquer, a salpicar de salamaleques e solidões, sob uma luz tênue das velas que embriagam de cheiro o lugar, Candelária e Baltazar se beijam sem parar. Uma orquestra madrigal pífia e lunar toca notas dissonantes ao amor de ambos que vicejam passos a rodear à espera de se deitar.
Como as línguas quentes que se uniam seculares em línguas de décadas várias atrás se tocavam? Eram as que adentram a garganta a lamber todo o céu da boca alheia que se floreia aberta ou ficarão apenas na chegada dos primeiros dentes? Como Candelária e Baltazar viviam seu amor em descompasso e torpor?
Na estapafúrdia lamúria de quem por sinal se deixa achar na invejosa balbúrdia que a cabeça dá, a imperiosa crença de que taças de vinho trarão o sinal final da corpórea comunhão. No salão, olhos se entreolham, desejos incorporam e o universo conspira nos corpos que transpiram sob vestes que não param de suar.
Como serão os momentos voláteis e fátuos que, de fato, se farão? Roupas serão rasgadas, perucas serão jogadas ao chão, pedidos de “por favor tenha calma” antecederão o estupor? A penetrar corpo tão desejado, o amante gozará antes da dama ou irá, respeitosamente, ouvir seu grito de tão desejo chegado e refeito?
Candelária e Baltazar agora se negam a pensar ou relutar àquilo que os consome a ultimar. Deitados na grama que serve de cama, dão à primazia da vida seu amor que da carne fez-se real. Logo mais, num tempo em que o relógio inexistia, o sol voltará. Entregues, sem vestes, os raios primeiros virão os corpos lhes abençoar.
Para onde, após o coito afoito, partirão? O salão ainda tem um ou outro casal a dançar na melodia tardia do menestrel que não sabe mais diferenciar acorde de fel? Dirão aos seus pares de verdade que foram abduzidos por goles de vinho a mais? Ou serão, alhures, só personagens de taças numa noite efêmera que se faz?
 
(Ao som barroco de sua música)

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