quarta-feira, 18 de setembro de 2024

Anoitecer em Belchior

Por Ronaldo Faria

 

Entardecer em tardia realidade. Belchior rola no ar. Em algum lugar alguém está a amar. Certamente haverá lábios rasgados por dentes afoitos e foices da paixão. No meio de tudo, retidão de palavras, tesão de corpos, livramento de profícuas ilusões que o tardio anoitecer traz nas nuvens e raios de sol.
Sistemático, pragmático, atávico, Jerônimo, homônimo de si mesmo, a esmo nas ruas, seguia pelas esquinas sonhando não bater em paredes chapiscadas. “Quem inventou essa maldição aos loucos que transitam em si mesmos? Qual foi o arquiteto ou pedreiro que decidiu impedir um pouso decente aos bêbados que trocam pernas na calçada infame de nenhuma fama?”
Para Jerônimo, ser de si mesmo, parcimônia entre o tempo que se tem e aquele que resta, a reza diuturna é o beijo na cadela que descansa sobre o som que dá rimas e ruma ao fim desejado. Na falta de um afago, ele sobrevive e cria a rotina cretina de fugir a cada sono insone e trôpego.
No derredor, falência de emoções e unções, o escuro já é dono de tudo. Ciências que um dia far-se-ão mera história de um mundo inexistente. Falências de órgãos e tragicomédias inéditas a cada nascer e por de um sol que vem e some, a assistir planetas e gametas girarem sem noção à busca de cifrões e comoções. “Disso tudo, o que diria Camões?” – pensou Jerônimo na sua inerte existência.
Na sua excrecência no mundo interligado, ligado umbilicalmente a outro umbigo que apenas vê a si mesmo, ele segue a trajetória meteórica e histriônica, exótica, de romper montanhas e entranhas, estranhas em paleolíticas monções de tempos atrás. Segue sem ver direito os carros que rompem o asfalto como fossem em busca da velocidade do som, brinca de passear nas árvores, se arvora de ser um ser vivente. Demente, mente para si de que a felicidade estará logo ali. Antes, Ali Babá e seus 40 ladrões saquearam o fim do arco-íris.
Agora, nem a seta enorme de uma tela branca irrita mais. Jerônimo, antagônico ser que se desdobra para ainda sobreviver, busca o cheiro da madrugada, as mesas do bar repletas de outras vidas ínfimas, a lua que se descobre infinda a brincar de poucas horas de verão, talvez um banheiro minimamente pronto para receber dúvidas, urinas e tresloucados desejos que nem mesmo o amor de ensejo saiba desejar.
Ao fim de tudo, no obscuro final de todos nós, com uma luz a anteceder o derradeiro olhar ou apenas a escuridão absoluta e resoluta que brilha lá fora, Jerônimo bebe outro gole, se engolfa de letras e rimas, pede apenas, se sobreviver, que tenha lucidez para um torpe banho tomar no acordar. Senta no meio de um fio de pedra e vocifera para ninguém ouvir. No entremeio geral, a certeza de que a solidão não depende de cifras musicais e cifrões a se espalharem e se espelharem numa tela de celular. A tristeza está intrínseca na seca de emoções que a vida traz..

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Um coletânea feita há 54 anos

  Por Edmilson Siqueira Em 1972, ou seja, há 54 anos, Sergio Mendes já tinha sucessos suficientes para produzir uma coletânea. Ela foi lança...