sábado, 7 de dezembro de 2024

Entre dois iguais e Caetano

 Por Ronaldo Faria


-- Você lembra mesmo do passado?
-- Claro que lembro.
-- E isso ficou gravado tanto tempo na sua memória?
-- Ficou. Parte como algo a se esquecer e outra parte a aquiescer, como se estivesse pra sempre nas cenas de amor e paixão entre dois iguais.
-- Como assim?
-- Como algo que era um mundo à parte, apartado do medo e da dor da realidade. Algo de infância renascida e que guarda raízes indeléveis até hoje.
-- Sei. Coisa de mansidão estradeira, feita em dias de viagem e paragens de secura, mas com todas as cores possíveis. Saudade inefável, enfim.
-- É, quase. Um fim que nunca acabou. Se perdeu, se desfez, se reencontrou em sorriso de espera inglória após a morte e o desejo de revisitar um passado carcomido e enterrado.
-- Entendi. Triste, não?
-- Não sei. Como o corpo que ficou largado nos fundos da cova e nunca mais será revisitado, tal reencontro de lembranças foi sepultado.
A conversa, convexa e incongruente, chafurdada em recordações primatas e primárias, se esvai sem razão de aglutinar. Na distância de longas léguas, milhares de quilômetros e mares sem conta, a voz de história histriônica, lacônica, tragicômica. Em portais, móveis que se fecham e se abrem, portas com ferrolhos e ferrugem, sentenças proscritas e escritas, dicotômicas, atônitas, atômicas se explodissem além da memória. Senão, apenas cifrão esquecido nas contas da vida ou cifras da canção nunca escrita, na desdita inaudita que só o luar que iluminou gente e animais sentenciou em si.

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