segunda-feira, 12 de setembro de 2022

A Jean Baptiste Frederic Isidor, Barão (Toots) Thielemans

 Por Ronaldo Faria

Ouça o som da harmônica e se embriague de tempos e têmporas. De forma atemporal, lembre-se que há Sonrisal. E óleo de rícino ou de bacalhau. Um prédio minúsculo e tosco perdido e fosco num lembrar qualquer. Para o que der e vier.

Escute e ausculte o coração ainda jovem e púbere de quem terá muito a ver e rever. Verseje um dia sim e outro também. Quem sabe, serás ouvido por alguém. Do lado tem uma quitanda, um barbeiro, uma praça de pródigos pranteios.

Saiba sentir o que estiver por vir. Como prólogos de um ator perdido em cena e que acena ao público que não há. Talvez, em revés, um padre vestido de negro te abençoe a crer. Aos batuques do atabaque, não se atordoe. Tempo ainda haverá.

Quando a parede se abrir com seres a te engolirem, chore alto. Acorde o mundo. Alguém virá te salvar. No derradeiro arfar, dirá que você é seu amigo. Talvez o seja. E inexistam laços de afeto, de amor, de família, de fugacidade e feto.

Se nada tiver a dizer, repita: “Pau no cu do angu!” Não tem lógica, mas deixe que o ilógico seja maior que o trágico. Logo mais ninguém te ouvirá para sempre e seja aquilo que puder ser agora, em semente. Leniente, vire ágora e inconsciente.

Por isso, livre-se do metal na boca, da lucidez à bancarrota, da incerteza que só a presteza dos anos te dá. Viva ainda muito, mas não deixe morrer o tesão. Sem ele, já dizia o poeta, não há solução. Faça-se, pois, a ação e reação.

Assim, ao som da harmônica, sintética e afônica, deixe o passado te consumir e sumir. Que te cubra de prazeres que cheiram a creolina, barulhos de enceradeira, momentos sem eira e nem beira. Todos serão meros e incrédulos portais.

Queime ao sol que bate no sofá de plástico nas tardes de uma Sepetiba que nem o dicionário do escrever quer ver. Vá e volte em lotações quentes, carros de rabo de peixe ou de boi. Deixe-se aboiar em saudades e veleidades milhares e mil.

Viaje em trens inexistentes. Como voyeur, sente na janela. Não feche os olhos porque muitas coisas passarão tão rápido que você nem vai ver. Contudo, nesse mundo redondo e rotundo, um dia elas irão voltar. Dê o sinal e pare na gare.

Se engalfinhe consigo mesmo. Transfigure a foto amiúde. Ache o que tiver de ser. Um copo vazio, saiba, terá muito ainda o que encher. Na imensidão do nada, o nadar se faz requisito primeiro e derradeiro para poder se sobreviver.

Saiba que saudades virão. Somos, em verdade, um poço eterno de saudades. Dos cheiros, dos olhares, alhures dos toques. Dos sons que vêm aos ouvidos e morrem no coração. Dos toques, dos suores, do que se foi mas ficará para sempre em fim.

Rememore sempre, mesmo que o rememorar maior esteja ausente. Só isso te fará gente. Descreia, por fim, de que o inusitado é um som de Chet Baker, um baque na certeza de que toda a felicidade tem fim. No vagão da vida, me entrego a ti em mim.

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