quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

No mundo fora do bumbo

 Por Ronaldo Faria


-- Porra, hoje é aniversário do Joacyr! Puta cara legal, mano. O cara é fera! Mandei uma baita de uma postagem no Facebook pra ele. Fiz um texto top!
-- Sério, que bacana.
-- Desejei vida longa, saúde, conquistas e tudo o mais. Arrasei.
-- Que massa...
-- Porque com o Joacyr seria sacanagem apenas dar os parabéns.
-- Com certeza.
-- Mano, lembra daquela vez nós num bar e ele pediu cérebro de boi empanado?
-- Lembro.
-- Porra, foi muito demais. Comi aquela coisa e fiquei uns três dias lembrando do boi. Só faltava mugir, com o cérebro subindo e descendo na garganta.
-- É, cara, aquela noite foi foda...
-- E aquela vez que fomos beber no boteco do portuga e roubaram o carro dele. Eu tinha acabado de ganhar um pacau de maconha e deixado debaixo do banco do carona. Os caras levaram o carro e ainda curtiram um barato!
-- Pior que foi mesmo.
-- Cara, o Joacyr tem que ser sempre homenageado. Por isso que eu postei o melhor que pude. Aliás, queria que ele tivesse marcado algo pra hoje. Eu não ia faltar. Mas ele deve estar enroscado com um rabo de saia ou enrolado no trampo.
-- É.
-- E a vez que ele inaugurou a geladeira logo depois da separação. Juntou gente pra caralho no apartamento dele. Foi uma baita festa. Todo mundo sentado no chão porque não tinha nem sofá e nem cadeira. Mas tinha a geladeira e birita.
-- Foi.
-- Teve gente que bateu recorde de cerveja e pinga. Foi da hora...
-- Com toda a certeza.
-- Mano, esse cara é lenda. Ainda bem que eu conheço ele e sigo ele.
-- Não tenho a mínima dúvida.
-- Já foi muita coisa junto e vai vir bem mais...
-- Acredito.
-- E você? Postou o que pra ele?
-- Nada.
-- Como nada, caralho? É o Joacyr, o cara, a lenda, nosso parça.
-- Eu sei.
-- Você sabe e não postou nada?
-- Não.
-- Que merda de amigo que é você. Estou decepcionado.
-- Tudo bem.
-- Mas como tudo bem? Tu é muito bosta!
-- Talvez...
-- Talvez? Com certeza.
-- Tudo bem. Tô indo.
-- Não aguenta a verdade? Como está indo? Vai pra onde?
-- Pra missa de seis anos da morte do Joacyr.
-- Como assim?
-- O Joacyr, o seu, meu, nosso amigo pica, morreu há seis anos. Valeu...
Desorientado, o homem fica parado na esquina. “Caralho, então é por isso que ele não publica nada há tanto tempo? Porra, o Joacyr podia ter avisado...”
 
(A ouvir a deusa de olhos verdes Maysa, outra para quem alguém deve estar preocupado com a ausência de notícias recentes)


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