quarta-feira, 12 de março de 2025

Com Paulo César Pinheiro

 Por Ronaldo Faria

 


-- E aí, Galderio, vamos pro samba?
-- Como assim? Já estou nele.
-- De que forma?
-- Não está ouvindo?
-- Não. Ou devo estar surdo...
Ao som da alma do samba, com incenso de arruda a queimar e cerveja no copo, os amigos, na magia da vida, vão na resenha prenha a se desmanchar.
-- E aí, já esqueceu a Maria?
-- Não. Mas a apaguei dos meus dias. Trilha que vai só numa direção sem resposta, vira bosta.
-- Fez bem. Já dizia Vovó Maria Conga há 50 anos: esquece, deixa de procurar, se ela quiser algo vai sentir falta e te buscar. Senão, não era pra ser. Saravá!
-- Saravá! Eu sei. Deu certo lá atrás. Aliás, sempre dá certo. É só lembrar e seguir o coração.
-- Faça isso, meu amigo. O que a vida separa, a história redime.
Perto do lugar, rola um crime. O assalto não virou e a pipoca pipocou. Dois mortos no local e um terceiro no rumo do hospital.
-- E como está Marivalda?
-- Tal e qual a Pastilha Valda: a queimar a garganta para tentar curar.
-- Como assim?
-- Driblando os trancos nos barrancos da nostalgia e da rotina...
-- É, eu sei. Na mesmice que o sofrimento traz.
-- Ferida não fecha depois que o cristal quebrou. Só blábláblá. Nem com loteria fechada no primeiro prêmio com número cravado na milhar traz de volta a paz.
-- É foda. Quer dizer, é a foda que já não há...
-- Vacilão, traz outra garrafa trincando que essa já foi!
Na rua passa o rabecão para buscar os corpos deitados em poças de sangue e buracos de bala a vazar sem parar.
-- E aproveita traz também um lanche de presunto pra homenagear quem não terá mais o que homenagear! Logo mais vai baixar a cova rasa sem riso pra dar.
A lua, no seu vagar inusitado a ver a terra se acabar como planeta que tem que seguir, já joga olhares cheios de malícia e luz para marte. Tudo está perto de dar um match.
-- Daqui vamos pra onde?
-- Como assim? Não está bom pra você?
-- Pra mim, está. Mas não sei se pro vacilão do Zé Meleca.
-- Foda-se ele! Quem tem birosca, tem enrosco. Se não aguenta, pede pra sair e vai vender leite.
-- Tem razão. Vamos chutar o balde e a desilusão!
E assim ficaram até a luminosidade da cidade deixar de brilhar no morro. Talvez um insano e insone aqui ou outro por acolá mantêm a luz de um quarto acesa. Quiçá, um banheiro onde o bêbado ou cagão busca remissão. Talvez a reminiscência que a essência do sofrimento derrama em lamento sem fim. Mas isso só a ciência dirá.
-- Como é bom não ter o que fazer no dia de amanhã. E seja o que tiver de ser, no ensejo de ser apenas um em si.
-- Sempre. No sopro próximo, o ócio.
-- E a birita. Essa que nos deixa birutas. Para completar, só umas mil putas!
-- Putas não, moças dispostas a dividir a troça que a vida nos dá. Meio a meio, onde todos somos e podemos. E nos fodemos. No bom sentido remido.
-- Com certeza. Não está aqui quem falou! Em falsete, que venha o beijo de amor ou a perna no torniquete que o sangrar da separação deixou.
-- E línguas entrelaçadas, libidos de homens e fadas, falsas palavras que ecoam na ventania que se foi e se esvai.
-- Vacilão, vê a última que a saudade quer ultimar no corpo que um dia perto vai morrer...
Zé Meleca traz aquela branca de gelo do lado de fora e logo põe a conta na mesa pra findar.
-- Vai cobrar? Mas nem que a vaca tussa. Pendura na conta do Abreu ou fecha o bar!

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