domingo, 16 de agosto de 2026

Encontros

 Por Edmilson Siqueira 


Viver no interior não é lá muito apropriado para encontros com grandes personagens da nossa música. Eles vivem no Rio ou em São Paulo e só aparecem numa cidade como Campinas para um show.  
Pois foi nessas aparições por aqui que andei conhecendo alguns deles, principalmente nos anos em que trabalhei como repórter de rádio e no Caderno C do Correio Popular.  
Eu trabalhava na Rádio Educadora (atual Bandeirantes de Campinas) e era pau pra toda obra. Um dia entrevistava Ulysses Guimarães em plena Treze de Maio, outro dia estava no Teatro do Centro de Convivência conversando com Egberto Gismonti.  
Foi como repórter da rádio que recebi a incumbência de entrevistar ninguém menos que Clementina de Jesus, hospedada num hotel do centro da cidade e que, à noite, faria show acho que no Sesc.  
Clementina era uma dessas joias raras da nossa MBP. Descoberta por Hermínio Bello de Carvalho, ela, que era empregada doméstica, virou cantora aos 60 e tantos anos. E que cantora. Com sua voz meio rouca e presença marcante, cantou muitos ritmos africanos e muitos sambas nossos, tornando-os populares. Eu a tinha como uma deusa da música. 
Pois foi só entrar no quarto do hotel e vê-la sentada na cama, que senti algo estranho que me fez parar. Foi como se uma onda forte me atingisse. Ela percebeu, me chamou de "mo fio", pediu pra sentar ao lado dela, pôs a mão na minha cabeça e as coisas começaram a voltar ao normal. "Acho que foi queda de pressão", eu disse. Ela perguntou se eu estava melhor, eu respondi que sim e começamos a entrevista. Não me lembro do que ela falou (lá se vão mais de 40 anos), mas o papo foi bom e foi ao ar naquele mesmo dia. 
Com Adoniram Barbosa foi diferente. Fui assistir ao seu show no Sesc do Bonfim, um dos últimos que ele fez na vida e estava lá esperando ele entrar em cena, quando a assessora de Imprensa do Sesc me viu (a gente se conhecia) e pediu pra eu ir até o camarim do Adoniran. Ela disse que ele estava sozinho lá e ela não podia ir naquele momento. Fui e o encontrei sentado numa poltrona, tranquilo. Não sabia o que dizer, mas ele me recebeu bem. Batemos um papo rápido ("Como está o show?", perguntei e ele responde: "O show tá bom, muito bom, a moçada é muito boa") e trocamos mais algumas palavras. O pessoal do Sesc logo chegou para dizer que estava na hora, ele se levantou, se despediu de mim, agradeceu a "companhia" e eu respondi: "Eu que agradeço por te conhecer pelo menos por alguns minutos". Ele deu risada e foi em frente. O show foi ótimo, diga-se. 


Já com Roberto Menescal e Leila Pinheiro a conversa foi muito mais longa. Como repórter do Caderno C fui convidado para um almoço com a dupla, que estava em Campinas para o show com o qual vinham viajando pelo país: "30 Anos de Bossa Nova". Fomo a um restaurante do Cambuí, conversamos bastante e, na volta até o Centro de Convivência, onde eles iam repassar o som, fomos a pé, continuando a conversa. Leila foi mais atrás com os músicos e eu e Menescal mais à frente. Falamos de muita coisa, ele me contou do Japão, onde ele encontrou discos dele e da turma da bossa nova que são raríssimos no Brasil. Até hoje me arrependo de ter esquecido de perguntar sobre a briga (que saiu na imprensa, mas sem detalhes) entre ele e Chico Buarque, eles que tinham sido parceiros na música "Bye Bye Brasil".  
Já dentro do Centro de Convivência, Leila se aproximou de mim e perguntou sobre o teatro. Disse que era um centro cultural. Tinha um teatro de arena do lado de fora, um bar, e dentro tinha também uma galeria de arte. Andamos pela galeria onde havia uma exposição do artista plástico Cruzeiro nas paredes. Disse que conhecia o artista, era muito bom e até ousei explicar alguma coisa de um dos quadros. Ela foi muito simpática e, na despedida, demos um beijinho que, eu pensei, seria no rosto. Mas não foi. Saí de lá me sentindo o rei da cocada preta... O show, à noite, foi, como era de se esperar, excelente. 
Houve outros encontros com artistas (joguei futebol de salão contra o MPB 4 na Unicamp), mas preciso reativar a memória para contar em detalhes. 

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