sábado, 22 de agosto de 2026

Clarividência bêbada e lúcida

 Por Ronaldo Faria


A esquina, essa coisa doida, doída e geométrica, meio linda e outro tanto tétrica, serve para determinar o início ou fim da vida. Se virar à direita, bola. Se optar pela esquerda, búlica. Mas quem quer saber o que virá? Em tempos de quase Carnaval, vale o que vier como primeiro raio a brilhar. De soslaio, fica o restante da vida. Na aflita fita de mapas e trajetórias, a história, estoica sensação de nunca ter fim.
A nova rua, que desce até outra e depois outra e logo mais outra mais, é somente a dormente mente que espera dormir bêbada e lúcida, foragida e homicida do destino incrédulo e perdulário de segundos fugazes. Métricos e homéricos, às vezes derradeiros e fétidos, destinos brincam de se embaralhar, enroscar, catar pedaços de pele e senões em sensações. Em unções, feéricas cauções de emoções, o adeus é o sim.
Em meio a tudo, a cidade que dorme incólume a colorir a solidão e os cheiros de saudade nos pescoços ocos se não tiverem tesão e amor para ter e dar. Nos minúsculos apartamentos, lamentos, gozos fortuitos e algo que se apraz. Talvez beijo tresloucado entre lambidas que dormem angustiadas de saudades plenas, fonemas que se misturam a dizer eu te amo e tudo mais. No planeta, gametas buscam algo pra fazer realizar da tragédia a comédia do lugar.
 
(Ao som de Pedro Salomão)

Clarividência bêbada e lúcida

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