terça-feira, 18 de agosto de 2026

Clarinha

 Por Ronaldo Faria


Clara caminhava na claridade que o sol ainda dava à espera do mundo deixar. Eram poucos e raros raios, decerto, mas vinham certos no rosto da mulher de sorriso largo e branco. Com vida a fluir em beijos ilusórios e poemas. Sofismas e rimas a misturar bocas e lábios nos fardos que cada amor dá em dádiva. E ria da vida, da flor a desabrochar safada em meio a espinhos, dos desatinos a voarem na imaginação. Era mulher e menina. Pequena, anárquica, a viver célere, talvez a saber que a vida é um sopro sem solução.
Clara, de risadas que frutificavam malícia e amores perdidos e atávicos, seguia a rua que descia para a casa física na beira da avenida. Ao seu derredor, uma mistura de bossa quase nova e sons de bicho-grilo que tudo rima pra não grilar com um dia ver tudo se perder. Ainda na falta de duas décadas para Nostradamus provar que estava errado e era um picareta inflacionado, ia a correr no universo de versos inverossímeis e paralelos. Seus elos com o velho há muito haviam se rompido. O mundo sorvia a sua libido. Era somente Clarinha.
Clara transitava entre pasma e profética, poética nas vozes da multidão que se esparramava eclética e cética das verdades da vida. Brilhava feito estrela nas noites translúcidas que a loucura dá e acordava ao novo lumiar de toda a música. Pernoitava doidivanas e plena como planasse soberba sobre a mesa que entrega sacies e solidões aos que a trilhavam em loucas andanças loquazes. E assim, assimétrica na métrica da beleza sísmica, foi-se feito vento que chega, faz e mostra que é somente refrão da vida. E virou estrela, dessas que de noite é a mais clarinha.
 
(Com Itamar Assumpção a saudar a clarividência de Clara)

Clarinha

 Por Ronaldo Faria Clara caminhava na claridade que o sol ainda dava à espera do mundo deixar. Eram poucos e raros raios, decerto, mas vin...