Por Ronaldo Faria
-- A vida é uma eterna perda,
caralho!
O grito de Rodolfo, entre uma
engolfada e outra, ecoa no bar que está quase a fechar. Rompe e irrompe o
lugar. Corre e foge milímetros de concreto e mesas mil. Passa e perpassa onde
pés antes pisaram, escorregaram ou quase caíram. Fizeram trajetórias e comeram
hóstias que um padre embriagado de vinho de sacristia deu. O alto brado de
Rodolfo, tosco e tragicômico, assustou até o garçom Chico, decano das mesas e contas.
Mas, o que é um bar senão uma fração de fuga e encontros, histórias e poemas?
-- Se é para perder e chegar ao
fim solitário e único, qual a razão de ser?
O berro ecoado e coado de café
para ver se consegue recobrar parte da lucidez de Rodolfo sai louco em tormentas
e torrentes. Afinal, não há muito mais onde vazar. O mundo parece grande, mas é
um pedaço ínfimo onde a finitude se junta a quadras delimitadas e fadadas a se
repetirem sem nenhuma noção. Afinal, a cada manhã que se aquece e aquiesce depois
do frio da madrugada, tragada em sim mesma, a solidão só acorda pra viver.
-- Qual a utilidade da fatalidade
na mesmice da sandice de cada um de nós?
O verbo, reverberado no
silêncio afônico do mundo, apenas brinca de saber que amanhã estará um traste para
nada ser. Mas qual, o agora valeu. Conseguiu enfim juntar o nada de si com o
eu. Pragmático, atávico, poeta sem reverberar suas marés no próprio mar, segue
até quando alguém tiver algo a dizer. A ver, a fluidez de palavras amorfas em
formas estrambólicas que nascem feito cólicas. Mas, se isso não for razão de
ser, de que terá valido Rodolfo gritar?
Defronte do bar para uma ambulância
do Samu. Rodolfo é imobilizado, sedado e levado a um pronto-socorro para
recuperar a sanidade. No dia seguinte é encontrado morto, enforcado, no único
galho da árvore do seu quintal que poderia lhe entender e aguentar.
(Ainda com Pedro Salomão)
