segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Carinho de dedos e gargalhadas

 Por Ronaldo Faria

 

-- A vida é uma eterna perda, caralho!
O grito de Rodolfo, entre uma engolfada e outra, ecoa no bar que está quase a fechar. Rompe e irrompe o lugar. Corre e foge milímetros de concreto e mesas mil. Passa e perpassa onde pés antes pisaram, escorregaram ou quase caíram. Fizeram trajetórias e comeram hóstias que um padre embriagado de vinho de sacristia deu. O alto brado de Rodolfo, tosco e tragicômico, assustou até o garçom Chico, decano das mesas e contas. Mas, o que é um bar senão uma fração de fuga e encontros, histórias e poemas?
-- Se é para perder e chegar ao fim solitário e único, qual a razão de ser?
O berro ecoado e coado de café para ver se consegue recobrar parte da lucidez de Rodolfo sai louco em tormentas e torrentes. Afinal, não há muito mais onde vazar. O mundo parece grande, mas é um pedaço ínfimo onde a finitude se junta a quadras delimitadas e fadadas a se repetirem sem nenhuma noção. Afinal, a cada manhã que se aquece e aquiesce depois do frio da madrugada, tragada em sim mesma, a solidão só acorda pra viver.
-- Qual a utilidade da fatalidade na mesmice da sandice de cada um de nós?
O verbo, reverberado no silêncio afônico do mundo, apenas brinca de saber que amanhã estará um traste para nada ser. Mas qual, o agora valeu. Conseguiu enfim juntar o nada de si com o eu. Pragmático, atávico, poeta sem reverberar suas marés no próprio mar, segue até quando alguém tiver algo a dizer. A ver, a fluidez de palavras amorfas em formas estrambólicas que nascem feito cólicas. Mas, se isso não for razão de ser, de que terá valido Rodolfo gritar? 
Defronte do bar para uma ambulância do Samu. Rodolfo é imobilizado, sedado e levado a um pronto-socorro para recuperar a sanidade. No dia seguinte é encontrado morto, enforcado, no único galho da árvore do seu quintal que poderia lhe entender e aguentar.
 
(Ainda com Pedro Salomão)

Carinho de dedos e gargalhadas

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