terça-feira, 25 de agosto de 2026

A primeira-dama

 Por Edmilson Siqueira 


O disco, lançado pela Verve, se chama "First Lady of the Song". Ora, para ser a "Primeira-Dama" da música num país como os Estados Unidos -pródigo em grandes cantoras - o título só podia estar se referindo à divina Ella Fitzgerald. Pois esse disco, em suas 16 faixas (é um CD, obviamente) abrange as gravações de Ella de 1956 a 1963. Claro que depois desse ano viria muito mais (ela viveu até 1996 e morreu com 79 anos), o que a qualificaria como a melhor cantora dos Estados Unidos por muito tempo. Com uma extensão vocal que abrangia três oitavas, sua dicção, seu fraseado e sua entonação eram impecáveis, bem como uma habilidade de improviso, criando históricos "scats": aquele som que mais parece um instrumento de sopro cantado enquanto o arranjo musical corre solto. 
O disco tem também o título "Best Of Ella Fitzgerald" e faz parte de uma trilogia, com 53 faixas, lançada a preços especiais (baixos) para comemorar os 75 anos da cantora, em 1993. Um dia eu compro os outros dois. Pois acho que 53 faixas ainda são poucas para mostrar todos as melhores interpretações de Ella. A apresentação do CD, na contracapa, diz: "Ouvida aqui em duetos, com pequenos grupos e à frente de 'big bands' a atemporal voz de Ella transforma cada canção em sua propriedade." E é isso mesmo. Como aqui no Brasil quando Elis Regina gravava uma música e qualquer outra gravação ficava pra trás, com Ella acontecia a mesma coisa. First Lady, ambas.   
O encarte que acompanha o disco é muito bem-feito (não fosse da Verve...) e, além da ficha técnica de todas as músicas, traz um artigo de George Mark Fieldman, escrito em julho de 1994. No ano seguinte ele lançaria o livro "Ella for the Record: The First Lady of Song". 
Só a presença de Ella já eleva qualquer nível de qualidade sonora que possamos exigir, mas o disco é particularmente interessante porque mostra também a extraordinária versatilidade da cantora. Ela transita com naturalidade entre o swing, as baladas, o jazz vocal e os grandes standards da música popular americana. Em “Can’t We Be Friends?”, por exemplo, divide os vocais com Louis Armstrong, enquanto “I Won’t Dance” também traz a participação de Armstrong e do pianista Oscar Peterson. Já “Lush Life”, de Billy Strayhorn, destaca seu domínio da interpretação mais intimista e sofisticada. 
Outro aspecto marcante é a qualidade dos acompanhamentos. Ao longo da seleção aparecem nomes como Count Basie, Duke Ellington, Nelson Riddle, Barney Kessel, Herb Ellis e Oscar Peterson, além de arranjadores como Quincy Jones e Buddy Bregman. Essa diversidade permite ouvir Ella em diferentes contextos musicais, sempre preservando aquilo que talvez seja sua maior característica: uma combinação incomum de precisão, espontaneidade e elegância. 


Quando do lançamento dessa coletânea inicial, a crítica do jornal "Los Angeles Times" considerou a seleção uma introdução reveladora à grandeza de Fitzgerald, destacando a variedade de seus acompanhamentos e a maturidade de sua voz. 
Mais do que uma simples compilação de sucessos, o disco funciona como uma pequena aula de jazz vocal. É um disco para ouvir com atenção aos detalhes: a maneira como Ella coloca uma palavra, brinca com o tempo, modifica uma frase melódica ou entra em diálogo com os músicos. E é justamente nessa aparente facilidade que reside sua genialidade: Ella Fitzgerald fazia o extraordinário soar natural. Coisa de gênio, obviamente. 
As faixas: 
- Too Young for the Blues (Charles Meyer e Biff Jones) 
- Can't We Be Friends? - (Kay Swift e Paul James) 
- Bewitched, Bothere and Bewildered - (Richard Rodgers e Lorenz Hart) 
- Just A-sittin' and A-rockin' (Edward Kennedy, Duke Ellington, Willian Thomas, Billy Strayhorn e Lee Gaines) 
- I'm Just a Lucky So and So (Duke Ellington e Mack David) 
- Baby, Don't You Go Away - (Jean Baptiste, Illinois Jacquet, Jimmy Mundy e Al Stillman) 
- Angel Eyes (Earl Brent e Matt Dennis) 
- I Won't Dance (Jerome David Kern, Dorothy Fields, Oscar Hemmerstein II, Otto Hartbach e Jimmy McHugh) 
- Lush Life (Billy Strayhorn) 
- Blues Skies (Irving Belin) 
- The Swingin' Shephered Blues (Moe Koffmann, Kenny Jacobson e Rhoda Roberts) 
- You're an Old Smoothie (Nacio Herb Brown, Richard Whiting e B.G. DeSylva) 
- Detour Ahead (Sidney Carterm, Walter Ellis e Johnny Frigo) 
- Don't Be That Way - Benjamin David, Benny Goodman. Michel Parish e Edgar Sampson)  
- A Fine Romance (Jerome Kern e Dorothy Fields) 
- Deed I Do (Fred Rose e Walter Hirsch) 
O CD está à venda nos bons sites do ramo e se você quiser ouvir não só esse, mas os outros dois também, tem no YouTube: https://www.youtube.com/watch?v=kucRYZuJZXc&list=PLC-4c-dTv6N20InODeUt8AUhzY4_jLf4Q . 

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