Por Ronaldo Faria
Gervásio, cria do mundo de carregar
bois à morte e bezerros pra vender, segue na trilha escura que o sertão dá e traz.
Segue no lombo do cavalo tordilho que o leva até aonde o mundo se traduz em caminhos.
No destrambelho sem estribilhos de canção, vai a ouvir corujas que acordaram do
sono sem servidão na busca do peito da amada em que bate seu coração.
É apenas vaqueiro perdido nas
trilhas que nem o mais fugitivo boi sabe o caminho que dá e contradiz. É somente
ser perdido e aflito a singrar estradas de terra seca e sem rio seco a refrescar.
É Gervásio, ser agrário e solidário à dor da mulher que pare para ver seu rebento
morrer. Alguém como qualquer padrinho Cícero ou sincero a saber que nada
restará a ter.
Resto presto de poesia de
cordel, senão fel de mel mal criado, vai a vencer estradas e distâncias que se
tornam quebranto. Feito tantos, Gervásio é somente ente limítrofe e calado. A
carecer do colo da mãe, do cheiro do lampião que aquece o escurecer que a noite
traz, conhece o mundo a vencer. Contudo, nada disso lhe dá mais medo do que o
solfejo da viola de Damião. Afinal, essa voa mais pra longe e certeira, arteira,
do que as asas de um avião.
Dessa forma, na fuligem que o
mato queimado ao seu lado ainda dá e faz à cena virar, Gervásio trota apóstata
e senhor de tudo. Da escrita, das lembranças e do mundo, só arrota. Vai sob o luar
sertanejo, no esgueiro do universo perplexo de ser tão pequeno ainda querer ser,
a pisotear. E assim, a florescer na seca que lhe envolve, cumpre a derradeira
trama do drama que se derrama a ser. No céu, negro e em todo ser, o tempo diz a si mesmo que é hora de esquecer.
(Com Renato Teixeira e Rolando Boldrin)
