Por Ronaldo Faria
Tudo se vai um dia. Se esvai quando falta o respirar, os olhos perdem a visão, o tempo para de repente, como repente que o cantor faz brotar no seu cantar. E vai embora a entornar o que ainda resta num copo. Feito o que não foi feito por falta de tempo, de entrega, nesga de poesia no final da tarde. Vai como o pássaro que voa e revoa de galho em galho na busca de um dormir. Como casa ou jardim. E chega e se aconchega, se achega, igual burrega na noite tardia que nasce no morrer do dia. Na ilusão sombria da morte, alegria em ter saudade da vida nos restos que ainda brincam de torpor e dor, à sandice de crer na alegria. E assim o poeta e cantador dedilha métricas e notas a esperar que a eternidade lhe traga ao menos o fim dos lamentos. Ao longe surgem os derradeiros ventos e repentistas a lhe convidarem para na eternidade cantar e profetizar o amor na ilusão. Tudo meio poesia e outra metade canção.
(Vital Farias 1943/2025)
