Por Edmilson Siqueira
Claro que uma cantora do porte de Ella Fitzgerald não poderia ficar restrita a apenas um artigo. O da semana passada foi sobre o primeiro dos três CDs da antologia "First Lady of Song". Pois esse é sobre outra coletânea, essa brasileira, mas originária na Verve também. E com um adendo dos mais importantes: são grandes standards do jazz e da canção americana, terrenos onde Ella trafegava magnificamente com seu talento.
Há registros de inúmeras coletâneas de Ella, tal sua produção até os 79 anos e, claro, à qualidade dessa produção, que só cresceu ao longo dos anos, conforme ia ganhando maturidade.
Essa coletânea se chama "Fantastic" e, claro, o nome combina com a artista que se manteve no topo das intérpretes durante mais de cinco décadas. Mais do que uma cantora de jazz, foi uma artista capaz de unir virtuosismo técnico, espontaneidade e uma comunicação direta, que tornava sua arte acessível mesmo quando enfrentava as passagens musicais mais complexas.
Nascida em 1917, Ella Fitzgerald iniciou sua trajetória profissional ainda adolescente e ganhou projeção ao vencer, em 1934, uma competição no Apollo Theater, em Nova York. Pouco depois, passou a integrar a orquestra do baterista Chick Webb, uma das mais populares formações da era do swing. Foi com esse conjunto que gravou, em 1938, “A-Tisket, A-Tasket”, sucesso que a transformou em uma estrela nacional. A partir daí, sua carreira assumiu dimensões extraordinárias.
O título "Fantastic" procura resumir justamente essa qualidade essencial de Ella Fitzgerald: a capacidade de realizar algo aparentemente impossível com absoluta naturalidade. Sua voz possuía clareza, afinação impecável e uma agilidade que lhe permitia percorrer melodias complexas com uma facilidade desconcertante. Ao mesmo tempo, Ella nunca pareceu cantar para demonstrar habilidade. A técnica estava inteiramente a serviço da música.
Em uma coletânea como essa, pode-se perceber diferentes momentos e facetas de uma artista que atravessou várias fases da história do jazz. Há a herança do swing, a liberdade conquistada com o bebop, a elegância das grandes baladas e o repertório popular interpretado com refinamento incomparável. Ella podia cantar uma canção delicada com enorme suavidade e, logo em seguida, lançar-se a um improviso vertiginoso, sempre mantendo o controle absoluto sobre a voz.
"Fantastic" também serve como porta de entrada para quem deseja conhecer Ella Fitzgerald. Em vez de procurar definir a cantora por um único estilo ou período, o disco permite apreciar sua versatilidade. Ela foi uma intérprete profundamente ligada à tradição do jazz, mas jamais foi "apenas" isso. Soube cantar com pequenas formações, big bands e orquestras, enfrentando repertórios que iam das canções populares aos standards mais sofisticados.
E são standards, ou seja, músicas que ultrapassaram suas épocas e se perenizaram no repertório de inúmeros intérpretes e que continuam sendo lançadas em novas e modernas canções.
Mas o valor desse disco está menos na ideia de apresentar uma simples coleção de sucessos (e que sucessos!) e mais na oportunidade de saber ou recordar porque Ella Fitzgerald conquistou um lugar tão especial na história.
Mas, passeando pelas faixas que relaciono a seguir, dá pra perceber que só tem clássicos que jamais esqueceremos. Vamos lá:
- Mack The Knife (Weill Brecht e Billzstein)
- All The Things You Are (Kern e Hammestein)
- I've Got a Crush On You (George e Ira Gershwin)
- Manhattan (Rodgers e Hart)
- Laura (Johnny Mercer e David Raksin)
- Night And Day (Cole Porter)
- My Romance (Rodgers e Hart)
- Summertime (George Gershwin, Ira Gershwin e DuBose Heyward)
- 'S Wonderful (George e Ira Gershwin)
- But Not For Me (George e Ira Gershwin)
- Someone to Watch Over Me (George e Ira Gershwin)
- Begin to Beguine (Cole Porter)
- Get Out Of Me (Cole Porter)
- Blue Moon (Rodgers e Hart)
- The Lady Is a Tramp (Rodgers e Hart)
- All Of You (Cole Porter)
Não encontrei a coletânea no Youtube, mas há muita coisa da Ella por lá. Mas o CD está à venda nos bons sites do ramo.


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