quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Rola e dói

 Por Ronaldo Faria


-- E aí, vai rolar um escrito?
-- Quem sabe. Junta remédio e álcool e a coisa dá uma freada brusca, dessas de cavalo de pau.
-- E isso é bom?
-- Bosta nenhuma. Mas se entregar de todo à dor é foda. Aí é melhor virar cinzas de vez.
-- Tem razão. E se é pra ter dor, vamos compensar com o que der pra compensar sem muito pensar.
-- É isso aí. Foda-se o resto. Se eu não presto, de corpo, que seja préstimo de cavalo de escritor que já passou dessa pra outra melhor...
Batista e Fulgêncio se entregavam em mistérios de um Algarves da paz, mesmo com oceano distante entre Madureira e as terras lusitanas. Cerveja sobre a mesa de plástico prático do subúrbio, vermelha e queimada de sol, brindavam a pouca vida e brincavam de ainda estar por aqui.
-- Pedir apenas para não sentir dor ao sentar é muito pedir?
-- Na boa, de boa, acho que não.
-- Então, caralho, custa alguém lá em cima ouvir o pedido?
-- Em cima de onde? A pomba no fio quase pronta pra cagar na gente ou as nuvens que o avião voa a algum lugar torcendo para não cair? Ambos aceitarem crer na sua fé?
-- Que seja. Que alguém seja só pra não deixar o resto de vida ser um só se foder...
-- Vou chamar outra pra fazer o papo valer. Demétrio, desce um périplo de geladas!
No rodear do lugar, gente corre e percorre suada do dia findo e trabalhado, cansado, encruado de vidas à espera do único dia de descanso onde nada irá acontecer. Talvez chuva inesperada, a parada encruada da Carreta Furacão, o maluco que queimou um cachimbo e achou de ficar doidão. Mas todos sequer sabem que a própria coluna podia ter sido ao menos a do Cavaleiro da Esperança, que fez história no calendário brasileiro. E ao contrário, para o bem da história escrita, não os levou ao desterro.
-- Você ainda tem um mínimo de esperança?
-- Em quê?
-- No amanhã, sei lá...
-- Quem poderá saber, quem saberá poder.
No ônibus que transita na pista, a mulher gorda dorme resiliente e crente. O office boy acredita que um dia ainda será patrão. O Zé Ninguém e a Maria Migalha se olham crentes no amor que a vista primeira dá. Na esquina, o policial militar espera não ter de nesse dia ter que se mijar. O vendedor ambulante é quase transeunte a mais na vigília pífia de sublimar a dor que vem do mar. Nalgum lugar alguém acende um incenso para dar cor de cheiro ao anseio de chegar.
-- A cerveja está mais quente ou é só impressão?
-- Sei responder não.
-- A porra do calor só fode com nós!
Em alguma caixa de som proibida pela Prefeitura, mas que rola solta, o cantor diz que amor da boca pra fora não é amor. Fulgêncio e Batista há tempos ouvem apenas o interior. E sambam daqui até o Olympia. Uma roda surge com pandeiro, tamborim, surdo, cavaquinho e cuíca pra animar geral. À vida, de forma literal a obliterar, o tempo passa a vagar rápido e eterno, etéreo. Terno, dirão os mais otimistas. Perverso, saberão os realistas. Tanto faz, como tanto fez. No amanhã nem todos terão vez. Afinal, ao invés de promessas sem felicidade, ao lado vive a cidade. Tópica, utópica, afônica, histriônica, catatônica, fervilhante, demente, frígida, louca a gemer. No morro que se mostra logo depois do último raio de sol, feito dois irmãos, o mundo diz que o mundo não vive, mas tem que aplaudir.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Ela voltou ou sempre esteve aqui

 Por Ronaldo Faria


A dor voltou prenunciando a faca que etra nas costas, a rasgar. Veio assim malandra, se aconchegando devagar e berrou com tudo: "Cheguei". Retornou com fé e força. Destrambelhou geral. A carcomer o pouco que ainda sobra para comer. A tornar cada gesto do corpo um sestro a ser expurgado. A ordem é dar espaço à dor. Deixar tudo mero bagaço. Sem direito sequer ao trago salvador. Nem aos deuses de umbanda poder pedir um tempo regulamentar para conseguir ao menos num minuto ter mero tranquilo respirar. Na azáfama do que isso seja lá o quer for virar...

(Com os Novos Baianos tentando amenizar a dor)

Rola e dói

 Por Ronaldo Faria -- E aí, vai rolar um escrito? -- Quem sabe. Junta remédio e álcool e a coisa dá uma freada brusca, dessas de cavalo de p...