Por Ronaldo Faria
Arsênio, que gostava de dizer
que tinha sido batizado em homenagem ao ácido, voltava de uma vibe própria, quase
erótica e pragmática. Ao sair para o trabalho no escritório peremptório de
sempre, onde era almoxarife, fadado à aposentadoria que nunca lhe sorria, viu na
esquina, encostada na quina da rua, uma mulher que chamar só de beldade seria total maldade. Que corpo e par de olhos que se fosse apenas só um já arrebataria meio mundo. Boca arreganhada de dentes que brilhavam
feito propaganda de sapão em pó, propagando de claridade na manhã quase tarde. Escultura que nenhuma IA saberia refazer porque a inteligência da criação
divina nela foi tudo, menos artificial.
-- E agora, o que fazer?
Assovio alto e em bom tom para mostrar meu espanto ou fico aqui no meu canto a
ver o esplendor da vida?
O ônibus que lhe pegava todos os
dias para rumar ao cadafalso do falso emprego parou e o motorista – Francisco Pisa
Fundo, que conhecia Arsênio – logo gritou que era hora de subir. “Porra, Seu
Arsênico, não vai trampar? Tenho itinerário e horário pra cumprir!” A voz
gutural, quase cultural entre os tons de vozes que a garganta humana sabe dar, rouba
o sonho do apaixonado de primeira vista.
-- Segura a onda, Chico. Tô
subindo. E meu nome é Arsênio, não arsênico...
Meio a contragosto, com gosto
de tristeza na boca, sobe no ônibus que tinha até faixa própria para se fazer
rodar com gente indigente de paixões feito sardinhas em óleo de feira. O
veículo, entre programado e ridículo, sai a soltar fumaça preta pela avenida. Arsênio
corre para o último banco a ver sua musa na jusante entre a realidade e a
perda. Queria ter a certeza de que não tinha delirado em si mesmo. Mas era verdade.
Lá estava ela: bela, profética, erótica e herege. Linda. A sublinhar e sublimar a
existência única da quase morte em plena vida. A mostrar que a perda é questão de segundos,
sejam estes líricos ou ofuscados.
Chega no trabalho feito pedaço
de carvalho que morre torto. Mal cumprimenta seus pares, paralisados em suas
funções e unções. Senta-se na cadeira que range sem parar e abre a gaveta para
tirar os carimbos que baterão sobre a mesa a emitir formulários de liberar e
guardar. Esses últimos, um canto de sala escura e cheia de pó, irão virar
comida de traça faminta de celulose e tinta. No relógio de parede a se arrastar
sob o sol tropical, minutos se cruzam sem querer passar. “Vossa excelência
primeiro”; “não, por favor, vossa eminência tem prioridade e valor”; “mas qual,
sua santidade tem, por ser segundo mais longo, prioridade”. Na sua cabeça, Arsênio queria levantar e fugir dali. Fosse Salvador Dali, teria derretido o
relógio maldito e o partido em mil pedaços de vidro, engrenagens e aço. Mas,
enfim, por fim, no fim, a hora se dá por vencida.
Arsênio bate o cartão e sai pelas
escadas para não esperar o elevador chegar lotado ao 14° andar. Sequer dá boa-noite ao vigilante Felisberto, nordestino esperto que havia conseguido o
emprego, segundo ele, graças a um milagre de Padim Ciço. Acelera o passo para o
ponto de ônibus. Afônico pelo esforço feito, sobe no busão primeiro que passa.
Perpassa as lembranças e, histriônico, ri de saber que poderá rever a imagem da
mulher desejada. Aquela orquestrada de desejo e prazer, muito além da
humanidade. A diva que, se estivesse endividada, ele roubaria o Banco Central
só para lhe dar felicidade. E assim segue pelas ruas das zonas norte, sul,
leste e oeste. Na verdade, não se atenta que pegara o ônibus errado, que ia
veloz para outro vago lugar. No ponto final, estranhando o redor, desce sem
perguntar. Já é tarde. Sem solução à vista, para num boteco onde rolava
sertanejo de corno. Senta num tamborete meio bambo e pede cerveja trincando e a
marvada da vez.
-- Está aqui, patrão. Você é
novo por aqui? Nunca te vi antes...
A pergunta do dono da birosca
chega meio sem lógica. Ainda mais para quem não sabia sequer onde estava.
-- É, eu sou novo aqui. Pra ser
sincero, tem batida de caqui?
O proprietário de tudo ri do
otário que bateu nas quebradas mais perdido que carioca em tiroteio.
-- Tem não, mas vou te fazer um
drinque que se chama cu do Judas.
No dia seguinte Arsênio não
foi almoxarifar. Acordou mais pra lá do que pra cá no colo de uma morena que tinha
gasto seu cartão no 1,99 do chinês da máfia de Xangai. Mas, contudo,
entretanto, porém, todavia, estava mais feliz do que dente de banguela a ver
farofa no ventilador voar. Seu Éden estava a se entregar.
(Com Tom Zé)

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