Por Ronaldo Faria
O sol queima danado do lado de
fora. Derrete asfalto, queima as folhas que restam nas árvores, choca os ovos
das pombas antes mesmo delas os colocarem. A fumaça que sobe do chão e o suor
que desce dos corpos dos transeuntes são o quadro definitivo. Aqui de afetivo
não há abraços que esquentam no simples toque. Melhor seria um ventilador
ligado a 300 por hora, no horário que pegasse desde o primeiro minuto do dia ao
último que tivesse sobrevivido no calendário. Mas qual, até o vento, certamente
quente, serviria mais como tortura do que consolo tido.
-- Pelo amor de Deus, Claudionor: traz de vez o freezer pra cá!
O grito de Roberval, seco como o tempo, soou no bar e ecoou além. Nas mesas ao lado os outros famélicos de sede exigem o mesmo tratamento. “Se levar um freezer pra ele vai ter de trazer outro pra nós”, sentenciou um senhor já sem camisa e a verter bicas. “Nem fodendo: quero regalia igual”, bradou o rapaz que fazia cortesia à mulher oxigenada com o chapéu alheio do pai.
-- Viu a merda em que você me coloca, Roberval? Aqui só tem um lugar de guardar as cervejas e é pra todo mundo.
Parte do bar aplaudiu, outra vaiou peremptoriamente. O primeiro reclamante põe o rabo entre as pernas e aceita apenas pedir a mais gelada que ainda tiver. Ao derredor, na dor daqueles que têm de correr atrás da vida que lhes foi concedida, a realidade transita além dos 45 graus. Desses, quem tem uma sombra qualquer corre depressa antes que alguém dê fé. Aos quem não tem só resta arrestar o que lhe sobrar – beirada de poste, pedaço de galho, tantinho de nuvem passageira.
-- Deu! Traz a conta que eu vou pra casa me jogar no ar condicionado a cinco graus...
Assim pedido, assim feito. Conta paga, caminhar trôpego até o lar, porta aberta, aparelho ligado. Largado de tudo, do todo e de si, Roberval deita no sofá. Pensa em respirar tranquilo. Mas qual... Sobrecarga na rede derruba todo o sistema da região. Na escuridão calórica que sobra, soçobra no chão à espera de ao menos morrer num piso frio. Do alto, seja esse onde for, algum deus ri enrolado de tolha na sauna com os santos da hora e proclama sem drama toda a trama: “Gabriel, aumenta mais uns graus nessa bagaça!”
-- Pelo amor de Deus, Claudionor: traz de vez o freezer pra cá!
O grito de Roberval, seco como o tempo, soou no bar e ecoou além. Nas mesas ao lado os outros famélicos de sede exigem o mesmo tratamento. “Se levar um freezer pra ele vai ter de trazer outro pra nós”, sentenciou um senhor já sem camisa e a verter bicas. “Nem fodendo: quero regalia igual”, bradou o rapaz que fazia cortesia à mulher oxigenada com o chapéu alheio do pai.
-- Viu a merda em que você me coloca, Roberval? Aqui só tem um lugar de guardar as cervejas e é pra todo mundo.
Parte do bar aplaudiu, outra vaiou peremptoriamente. O primeiro reclamante põe o rabo entre as pernas e aceita apenas pedir a mais gelada que ainda tiver. Ao derredor, na dor daqueles que têm de correr atrás da vida que lhes foi concedida, a realidade transita além dos 45 graus. Desses, quem tem uma sombra qualquer corre depressa antes que alguém dê fé. Aos quem não tem só resta arrestar o que lhe sobrar – beirada de poste, pedaço de galho, tantinho de nuvem passageira.
-- Deu! Traz a conta que eu vou pra casa me jogar no ar condicionado a cinco graus...
Assim pedido, assim feito. Conta paga, caminhar trôpego até o lar, porta aberta, aparelho ligado. Largado de tudo, do todo e de si, Roberval deita no sofá. Pensa em respirar tranquilo. Mas qual... Sobrecarga na rede derruba todo o sistema da região. Na escuridão calórica que sobra, soçobra no chão à espera de ao menos morrer num piso frio. Do alto, seja esse onde for, algum deus ri enrolado de tolha na sauna com os santos da hora e proclama sem drama toda a trama: “Gabriel, aumenta mais uns graus nessa bagaça!”
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