terça-feira, 15 de setembro de 2026

Quentura e Nordeste que não se avexa

 Por Ronaldo Faria


O sol que vem do céu brilha feita abóboda de ouro onde nem milho mais consegue crescer e o mandacaru briga para o resto de vida não secar. O carcará há muito decidiu que por ali não vale a pena voar. Carcaça já faz tempo que não tem. No lugar só ficou quem nasceu por ser tinhoso ou teimoso de viver. Do tipo só esperar para ver como o fim de verdade vai ser. Afinal, que serventia tem se brigar contra a morte desde o berço de madeira crua e se encruar depois?
-- E então Severino, vai ao xote de logo mais?
-- Sei não...
-- Por que não, cabra macho?
-- Ando meio descompensado, sem sustância.
-- Mas de que vale ficar nesse fim de mundo se não tiver um cangote pra cheirar?
-- Sei não...
-- Então larga a mão de ser besta. Vamos levantar um poeirão e roçar as pernas nas pernas das meninas que por lá tiverem de aparecer.
-- Vou ver. Vou ver...
Severino dá um até logo ao amigo e toca o cavalo magro para o casebre de taipa que tapa em barro sua solidão. Acende o lampião e o cheiro de querosene se faz perene. Põe fogo na lenha que dorme restante no fogão e prepara um resto de feijão. A fava ficará para o café. Deita na rede e tira o gibão sujo de pó marrom e cravejado de espinhos do que resta das árvores de galhos sem folhas ou florir. Pensa no que ainda lhe falta de estrada, das vezes que despertará sofrido. Antevê chuva salvadora, dessas que rompe açude, enche os rios e molha as pedras que dormem no leito onde antes havia vida e luzir. 
Ao longe, ouve a sanfona de Zé Longuinho a tocar e gemer. Num tal de fole pra lá e pra cá bom de ver. Pensa em comer o feijão que borbulha na panela e seguir até ali. Talvez Mariquinha esteja com seu vestido de chita branco e rodopiar e se largar. A dançar feito desejo e beleza ainda mais maior. Mas as pernas fraquejam no lampejo que surgiu da vontade. Melhor deitar de vez e sonhar com o agreste em festa como fosse felicidade uma fresta pronta pra se abrir. 
Não pensou duas vezes. Saciou o pouco de fome no pouco que tinha e se largou na rede a ressonar. Acordou no dia seguinte como fosse repente de cantador e soube que Mariquinha fugiu na madrugada quando a lua ainda voava no céu por voar com um caixeiro viajante que lhe prometeu corte de pano do bom e quarto de tijolo com janela para um quintal de muita flor. No terreiro o galo que ainda resta solta um acordar da garganta de quem sabe que se falhar no canto cairá em desencanto e a faca cortará seu pescoço.
 
(Com Gonzagão e Gonzaguinha)

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