Por Ronaldo Faria
Bernardo tosse na taça de
vinho. Mas qual, ali agora já há apenas cerveja. “Melhor assim. Bacilos e outros
irão morrer em algo menor”, pensou. Nas seis caixas acústicas, trio de vozes a
verter. No ar, futura brincadeira de ressaca e saber que valeu a pena criar.
Senão, a vida não teria sequer mero e raro som verde. "Deixemos o florir vir na
secura da vida crescer! Que o nada ser do amanhã saiba ser."
Bernardo, que de santo nada
tem e nem carrega pra si mero vintém, sabe que a sapiência não depende da tal meritocracia.
Talvez um pouco de noitada, outro tanto de putaria e um pitaco de mãe a orar na
sesmaria. "Deus, cuida dele pra mim." Afinal, na orgia da vida, é possível aprender como autodidata sem
saber sequer como isso pode ou poderia acontecer. Soubéssemos, seríamos mais um coach de merda a falar qualquer dizer.
Bernardo, árduo combatente de
si, a assinar acordos de paz na guerra para sobreviver ao próximo dia, diarista de
qualquer coisa, prefere acreditar que o fim próximo no agnóstico ser é somente
crer. "Não o for, foda-se!" Vacinado de não pegar incenso recém queimado para não
queimar dedos e a mão, apenas vê as cinzas aromáticas se tornarem silêncio e
escuridão agora inexistente e fugidia.
Bernardo, claudicante amante da
vastidão que só a brincadeira de viver sabe dar, segue no fátuo sabor inexistente
da semente que não brotou e vê o fruto abortado ser unicamente solidão. Emérito
na academia nunca existente, lhe cabe a cadeira que reduz as dores da falta de
duas vértebras inteiras. Às asneiras que cria, difícil missão de cruzar o
limite das Tordesilhas. Melhor parar em qualquer ilha.
Bernardo, fardo de si, enfastiado
de ser ator de uma comédia virtual na tragédia real, caminha até a bilheteria fechada sem fachada.
Deixa o palco sob vaias desvairadas e relutantes. Por instantes, pensa ouvir um
raro aplauso. Daí deduz que já está bêbado. Ou seja, sente ter sua missão
cumprida ao mesmo tempo em que descobre que lhe falta pouco tempo a cumprir. "Mas o que é
a vida senão uma brincadeira sem nexo?" Perplexo, vomita o que lhe resta e se põe a dormir.
(Com Trinca de Ases)

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