terça-feira, 4 de agosto de 2026

Do vinho à cerveja

 Por Ronaldo Faria


Bernardo tosse na taça de vinho. Mas qual, ali agora já há apenas cerveja. “Melhor assim. Bacilos e outros irão morrer em algo menor”, pensou. Nas seis caixas acústicas, trio de vozes a verter. No ar, futura brincadeira de ressaca e saber que valeu a pena criar. Senão, a vida não teria sequer mero e raro som verde. "Deixemos o florir vir na secura da vida crescer! Que o nada ser do amanhã saiba ser."
Bernardo, que de santo nada tem e nem carrega pra si mero vintém, sabe que a sapiência não depende da tal meritocracia. Talvez um pouco de noitada, outro tanto de putaria e um pitaco de mãe a orar na sesmaria. "Deus, cuida dele pra mim." Afinal, na orgia da vida, é possível aprender como autodidata sem saber sequer como isso pode ou poderia acontecer. Soubéssemos, seríamos mais um coach de merda a falar qualquer dizer.
Bernardo, árduo combatente de si, a assinar acordos de paz na guerra para sobreviver ao próximo dia, diarista de qualquer coisa, prefere acreditar que o fim próximo no agnóstico ser é somente crer. "Não o for, foda-se!" Vacinado de não pegar incenso recém queimado para não queimar dedos e a mão, apenas vê as cinzas aromáticas se tornarem silêncio e escuridão agora inexistente e fugidia.
Bernardo, claudicante amante da vastidão que só a brincadeira de viver sabe dar, segue no fátuo sabor inexistente da semente que não brotou e vê o fruto abortado ser unicamente solidão. Emérito na academia nunca existente, lhe cabe a cadeira que reduz as dores da falta de duas vértebras inteiras. Às asneiras que cria, difícil missão de cruzar o limite das Tordesilhas. Melhor parar em qualquer ilha.
Bernardo, fardo de si, enfastiado de ser ator de uma comédia virtual na tragédia real, caminha até a bilheteria fechada sem fachada. Deixa o palco sob vaias desvairadas e relutantes. Por instantes, pensa ouvir um raro aplauso. Daí deduz que já está bêbado. Ou seja, sente ter sua missão cumprida ao mesmo tempo em que descobre que lhe falta pouco tempo a cumprir. "Mas o que é a vida senão uma brincadeira sem nexo?" Perplexo, vomita o que lhe resta e se põe a dormir.
 
(Com Trinca de Ases)

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