Por Ronaldo Faria
-- E aí, sortudo?
-- Tá de sacanagem?
-- Como assim?
-- Porra, você sabe. O mundo cai do céu e fode meu barraco, inunda de água e frustração tudo em volta, traz até a tal de dengue junto, e você vem dizer que eu tenho sorte?
-- Desculpa. Fica calmo.
-- Calma? Tenho isso desde que Noé resolveu juntar um barco cheio de bichos prontos só pra se comer ou trepar. Acho que já deu...
-- Para com isso. A vida é bela, só nos resta viver!
-- E que caralho tenho feito até agora? Aqui o trem já passou, foi e voltou e eu esqueci de ficar de prontidão na estação.
O sol, desses de ferver trilho de aço e enlouquecer mesmo burguês em temperatura refrigerada de menos três graus, certamente havia frigido o cérebro de Abraão. Também quem mandou trabalhar de operário na expansão do metrô que existe só para fazer valer os 30% do deputado que trabalha para seu estado.
-- Cacete, Jorjão, segura essa tua onda de ver algo de bom em tudo. O que bom tive hoje? Me aprumei todo, sonhei desembestado, esperei, acreditei. Pra quê?
-- É porque algo melhor ainda está por vir. Levanta as mãos pro céu.
-- Isso se algum amanhã ainda chegar pra gente ver...
A cerveja quente nos copos copula com o suor que cai vidro americano a fora.
-- Chico, manda outra pra essa mesa de plástico cagado!
Com cara de pouco ou nenhum amigo, o garçom só tem uma resposta posta: “Devagar com o andor. Aqui também tem um operário de salário mínimo”.
-- Abraão, a gente não sabe os caminhos e descaminhos desse mundo. As coisas vão acontecendo e sequer sabemos se o tal de destino é sacana ou bacana. Ao menos a gente pode encher a cara. E amanhã, na ressaca, achar que tudo é sol raiando mesmo no maior breu.
-- Puta que pariu, virou esses caras que faturam com autoajuda para otários?
-- Não. Só acho que sempre tem algo no ar que a gente não vê.
-- Sei, tipo astrônomo, meteorologista ou vidente?
-- Pode ser...
-- Cara, você é muito fora do prumo. Prefiro essa minha realidade maldita.
-- Pra quê?
-- Para não correr o risco da gente achar que essa bosta pode ainda foder tudo mais daqui pra frente.
-- Mas viu, o dilúvio sumiu e voltou. Não é milagre?
-- Chico, traz uma porção de jiló frito e vinagre!
-- Viu, até fez rimar a merda em poesia...
O tempo agora lá fora é de calor menor e estupor. Quem estava de guarda-chuva até acredita que a noite será festa. Na fresta que se incesta presta, a alegria de fim do dia sai dos pássaros a buscar seu aninho. No boteco, quase vendinha, a vendeta é saber se pecado é querer crer ou se querer acreditar é o pecado da vez...
(Com Celso Fonseca, porque alguém nessa vida tem de ser porreta)

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